sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Quem Ainda Aguenta Falar de Kit-Gay?





Estou falando sério... Não aguento mais observar nas redes sociais essa palhaçada de que o suposto “kit gay” foi distribuído nas escolas públicas e que fazia parte do material didático. Já ouvi milhares de versões da mesma história: tem gente que afirma que algumas professoras, no maior estilo Sociedade dos Poetas Mortos levavam escondidas as crianças para uma caverna e lá ensinavam o que está descrito no livro. Outros ainda juram que folhearam o material e se chocaram com as cenas de sexo explícito contidas nele.

Espero que, pela última vez, tenha que esclarecer aos idiotas de plantão do que se trata o tal “kit-gay”.

Em 2011, foi realizado um convênio com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para criar um material que seria distribuído às instituições de ensino em todo o país. O projeto havia sido aprovado pela UNESCO. Pra quem não sabe o que significa, a UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - é uma instituição mundial criada logo após a Segunda Grande Guerra, que tem o objetivo de garantir a paz por meio da cooperação intelectual entre as nações (hoje, cerca de 193 países) desenvolvendo projetos de cooperação técnica nas três esferas de governo, além de parcerias com a iniciativa privada e sociedade civil para a formulação de políticas públicas – coisas que deveriam ser atribuição dos vereadores e deputados, que não o fazem.

Pois então, quando esse material – que somente tinha o objetivo de educar adolescentes e pré-adolescentes sobre a diversidade sexual e combater a violência por homofobia (e não “promover” nenhum comportamento) já estava prontinho para ser impresso, os setores mais conservadores do Congresso começaram a realizar uma campanha contra o projeto e da forma pejorativa o apelidaram “kit-gay”, pois (segundo eles) estimulava a sexualidade e a promiscuidade. O governo, então, cedeu à pressão e suspendeu o projeto ainda no mesmo ano e, desde então, nunca mais entrou em pauta.

Definitivamente, esse material NUNCA foi distribuído às escolas pelo simples fato de nunca ter sido impresso. O próprio Ministério da Educação chegou a desmentir oficialmente esse assunto. Esse é um fato. Esclarecido?

O segundo é baseado ainda na mesma mentira, só que adaptada. Para continuar com a mesma abobrinha de que o tal kit-gay não é a cabeça de bacalhau que ninguém viu, o candidato do PSC, naquela entrevista do Jornal Nacional, ainda no primeiro turno, levou para a bancada um livrinho ilustrado dizendo que aquele ali era o tal “kit-gay”. Outra mentira deslavada. O tal livro é o Aparelho Sexual e Cia., de 2001 e que foi traduzido e lançado no Brasil pelo selo jovem da editora Companhia das Letras em 2007. Este livro franco-suíço escrito por Hélène Bruller e pelo cartunista Zep é destinado à orientação sexual de alunos entre 11 a 15 anos (na França, por exemplo, um país de primeiro mundo, ele é adequado para crianças entre 9 e 13 anos) e já foi traduzido para mais de 25 países, incluindo a China.

A obra ficou muito tempo esgotada por aqui e foi relançada em setembro deste ano. Em 2011, outro Ministério (não o da Educação, mas sim o da Cultura) comprou 28 mil exemplares e o destinou a bibliotecas públicas.

Portanto, pra finalizar, uma coisa não tem nada com a outra. A primeira publicação nunca foi impressa e a segunda é um livro que SEQUER trata sobre ideologia de gênero, conteúdo LGBT ou obviamente montagens toscas de sexo explícito.

O tal “kit-gay”, portanto, é um (mais um) factoide onde só os desavisados caíram (ou que tiveram desinteresse em fazer uma pesquisa básica, por pura falta de bom senso).

As eleições estão aí. Domingo é dia de pensar bem pra não se arrepender depois. E a resistência é o ponto de partida. 

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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