quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Ser Humano: Locução Verbal





Semana passada extraí, após algum adiamento, três sisos. Eu já nasci com um a menos, mesmo - sinal da evolução, dizem. Sabemos que os sisos são, realmente, herança da nossa seleção natural, desde a época em que éramos macacos, assim como o cóccix, que é um resquício do nosso rabo, e as dores na lombar, que foram o preço por nos tornarmos bípedes. Aliás, há outros órgãos vestigiais no nosso corpo, explicados somente após Darwin, como o próprio apêndice (do qual também me livrei anos atrás).

Por isso, depois de passar por dois procedimentos dolorosos como esse dos sisos e da apendicite, não dá para não parar e perguntar: "Pô, Deus, eu não poderia já ter nascido sem essas tranqueiras?". Se somos humanos, evoluídos, e já não precisamos mais disso, por que aí da sofrer por eles? Mas o que, enfim, nos define como humanos e evoluídos?

Conversando com meu companheiro dia desses em casa, ele me contou o caso de duas irmãs que cresceram em meio a uma alcatéia de lobos. Tinham o comportamento canino, eram arredias e sequer desenvolveram as cordas vocais para sons mais complexos. Quando foram colocadas em sociedade com outros humanos, tiveram dificuldade na adaptação e uma delas morreu. Daí ele comentou comigo: "o ser humano é o único ser que precisa aprender a ser o que ele é. Precisa se adaptar à humanidade, que não vem por instinto".

De fato, as outras espécies tem no instinto a sua formação social. Claro que muitas, submetidas ao convívio humano, acabam tendo seus comportamentos moldados. Mas em condições naturais, os animais têm suas formas de agir e viver bem definidas. E nós? O que nos define? O fato de andarmos sobre duas pernas e termos um polegar opositor? O fato de termos um cérebro bem desenvolvido? De que adianta termos tudo isso e não sabermos aplicar pelo bem da humanidade?

Tornar-se humano é um exercício que é mais intenso na infância e adolescência, momento de formação e afirmação da personalidade. Mas é uma tarefa diária. Vemos muitos esquecendo o que é humanidade no nosso dia-a-dia de uma forma bem triste, carregada de decepção com pessoas com quem convivíamos até com certo apreço e consideração. Pessoas que questionam Direitos Humanos, sem sequer se incluir neles e compreender que todos, errados ou certos nas nossas atitudes, somos iguais na nossa constituição - e na nossa Constituição. 

Por mais que me doam os sisos, o apêndice ou a lombar, existem muitas outras dores maiores no processo de evolução humano. A dor de ver muitos de nós se tornando mais animalescos e transformando as nossas Leis em simples selvageria. 

Afinal, ser humano não deveria ser uma locução substantiva, mas, sim, verbal. Sejamos humanos, sempre.

Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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