terça-feira, 16 de outubro de 2018

Vamos Falar Sobre PrEP?




Há algum tempo, a profilaxia pré-exposição (PrEP) tomou conta dos noticiários de saúde, causando alegria e consternação em partes iguais. Existe um rumor de que a Organização Mundial de Saúde recomendou que todos os homens que fazem sexo com homens tomassem um comprimido por dia do antirretroviral Truvada, como forma de impedir que o vírus HIV se alojasse no corpo de quem toma o remédio em caso de sexo sem preservativo. 

Houve todo um leque de reações, onde a felicidade do surgimento de uma nova maneira de se prevenir contra a contaminação pelo vírus HIV entrou em choque com a descrença resultante de 30 anos de condicionamento sobre a população LGBT, que passou décadas ouvindo que o preservativo era a única maneira de se prevenir a infecção. 

O estudo que avalia a possibilidade de se oferecer a PrEP para a população brasileira ainda está em andamento, mas evoluindo a passos largos e por essa razão, talvez seja até comum você conhecer alguém de seu convívio que já faça uso do medicamento. Enquanto isso, nos Estados Unidos, o uso do Truvada como forma de se prevenir contra o HIV já está liberado desde 2014. 

Muitos tiveram que lidar com o rótulo de “Truvada whore” (biscate do Truvada) porque, argumentavam alguns desinformados que, umas pessoas estão tão loucas pra trepar sem camisinha a ponto de tomar um remédio todo dia só porque são muito putas mesmo. Ou seja, conseguiram demonizar o que na verdade é uma atitude muito responsável: usar novas maneiras disponíveis de prevenção para garantir a própria saúde, podendo então fazer sexo sem preservativo (se quiser) sem o medo de pegar HIV. Esse pensamento é deveras retrógrado, pois não necessariamente você toma Truvada para “dar ou comer todo mundo”. Existem muitas relações sólidas hoje em dia, de pessoas sorodiscordantes, e associar esse tratamento tão somente à classe LGBT ou a um comportamento promíscuo (e se fosse?) é mais uma prova da ignorância e hipocrisia humana. 

Mas é importante sabermos qual a diferença entre PrEP e Truvada. Bem, PrEP é o protocolo/tratamento, e não o remédio, ok? PrEP significa “Profilaxia Pré-exposição” e consiste na utilização de um medicamento para evitar que uma pessoa que não tem o HIV adquira a infecção quando se expõe ao vírus. No caso do PrEP (protocolo/tratamento), Truvada foi o medicamento escolhido para se fazer essa tal prevenção da infecção pelo HIV. É importantíssimo lembrar que o tratamento não protege você das infecções por outros agentes e que causam outras doenças sexualmente transmissíveis como hepatites e sífilis. E acho que esse pode ser um dos maiores erros de quem adere ao tratamento: achar que está protegido de tudo e sair por aí trepando com geral, sem se prevenir das outras doenças. Mas é claro que isso não invalida o fato de que o tratamento previne contra o HIV sim, pois ao tomar o Truvada corretamente, a proteção contra o HIV chega próximo de 100%.

Em minhas pesquisas, soube que há tratamento pela via particular, mas o preço é muito alto – pelo menos para mim (cerca de R$300,00 a caixa com 30 comprimidos) e a disponibilidade não é garantida (às vezes, há falta no mercado). Por conta disso, o tratamento pode ser feito pelo SUS, e o serviço é bem melhor e organizado (por incrível que pareça). No Brasil, o protocolo é oferecido de graça pelo SUS e o usuário se torna um voluntário dos estudos para combater o avanço da epidemia de HIV no país. Neste caso, a referência da pesquisa hoje é a Fiocruz. Porém, o mais importante e talvez o maior desafio é tomar o remédio todos os dias com disciplina. Se o usuário não tomar o comprimido corretamente, pode ser que não tenha substância o suficiente no sangue para impedir a contaminação, sacou?

Rola ainda um lancezinho de automedicação. Cuidado com isso, galerinha transante! Tem gente que compra o PrEP particular e toma sozinho, sem acompanhamento de um médico. É importante fazer esse acompanhamento constantemente para entender como o fígado e o seu corpo de modo geral está reagindo. O médico ajudará ao usuário também no controle de possíveis efeitos colaterais, que no caso do Truvada, os mais comuns são: náusea, vômito e dor de estômago. Portanto, pessoal, nada de automedicação!

A maior desinformação que li em minhas pesquisas, é a ideia de que o uso de PrEP vai aumentar a incidência de outras ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis), já que rola a despreocupação com a prevenção, como disse anteriormente. Mas o perigo real do Truvada, por enquanto (porque ainda não temos como saber), é em relação aos seus efeitos de longo prazo no fígado e na função renal, já que é um remédio forte para ser tomado diariamente. E é justamente por isso que os usuários são obrigados a passar por esses exames para o fígado e rim nos check-ups regulares e são acompanhados pelos pesquisadores, explicando a necessidade de continuarem se prevenindo sobre outros males.

A lição que tiro disso tudo é que o pior é que não é comum falar sobre camisinha, PrEP e outras questões de saúde com parceiros eventuais. Mas isso precisa se tornar algo normal, galera! Sinto que o uso do PrEP no Brasil ainda é associado à promiscuidade. A gente precisa, seja como comunidade LGBT ou não, derrubar o preconceito que envolve liberdade sexual.

Por fim, o maior problema em se fazer alarde sobre possíveis falhas do PrEP é que isso mantém vivo o espectro do HIV como a pior coisa que pode acontecer com alguém, o que perpetua um estigma que fere os soropositivos muito mais do que o vírus em si. Poucos sabem, mas o Brasil (pasmem!) é um país avançadíssimo em termos de tratamento de HIV, e hoje em dia soropositivos vivem vidas normais e saudáveis, se seguirem os tratamentos e orientações médicas corretamente. Devemos, apenas, prevenir o HIV como qualquer doença – seja com PrEP, camisinha ou ambos - e termos a consciência que o prazer sexual pode ser seguro e muito mais gostoso quando tratado com seriedade e responsabilidade.

Como esse não é um artigo cientifico, se você leitor, se sentiu curioso, busque maiores informações nos contatos da Fiocruz pelo e-mail canal@fiocruz.br ou nos telefones (21) 3194-7700 | 0800 701 812.

No mais, bora gozar gostoso e ser feliz!

Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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