sexta-feira, 9 de novembro de 2018

"A Arte Existe Porque a Vida Não Basta"





A frase do título da coluna de hoje foi dita por Ferreira Gullar, um dos maiores poetas vivos da atualidade. Gullar foi autor de Poema Sujo, uma das obras mais ousadas da língua portuguesa, escrito em 1976, quando estava exilado em Buenos Aires por motivos políticos. Na época, o Brasil estava sob o regime militar desde o golpe de 1964 e o governo tinha autorização para entrar no país hermano para capturar presos políticos.

Poema Sujo foi concebido ao longo de seis meses, como uma espécie de testemunho final, pois o poeta temia pelo seu futuro devido à repressão que sofria. E é, antes de tudo, um desabafo. Gullar disse certa vez que “o poema era sujo como o povo brasileiro, como a vida do povo brasileiro”.

Essa frase ficou martelando na minha cabeça durante toda esta semana... Afinal, como surge uma obra-prima? Qualquer manifestação artística estaria de certa forma, relacionada com uma insatisfação? A “arte” estaria sempre relacionada a um transbordar de sentimentos?

Apesar de não ter chegado a conclusão alguma, comecei a juntar algumas peças de um grande quebra-cabeças e algumas coisas começaram a fazer sentido. Se eu e meus amigos do Barba Feita escrevemos todos os dias aqui para vocês, é porque temos algo pra dizer e que não cabe dentro de nós. Como disse no primeiro texto que publiquei aqui, “escrever dói”. Sim, é uma espécie de automutilação. Sofremos com cada linha... Apagamos parágrafos inteiros, reescrevemos, achamos que nada faz sentido, recomeçamos do zero, ficamos apreensivos com o deadline, publicamos e ficamos aguardando a aprovação (ou não) dos nossos leitores.

Mas até ser publicado, é um grande sofrimento. Praticamente um exorcismo. Mas, quando ele sai de nós, deixa de ser íntimo e passa a ser do mundo. É um alívio, confesso. Reconfortante. Mesmo que as pessoas digam “esse texto está uma merda”, é um alento. Afinal, vejo a arte como tudo aquilo que, de certa forma, incomoda, atormenta, constrange, perturba.

Quando comecei a escrever fanzines, lá no início dos anos 1990, assim o fiz pois estava me sentindo inquieto e precisava externar a minha revolta. Na época, havia uma enxurrada de bandas, artistas e autores sensacionais, que não tinham espaço nos grandes veículos mainstream. Então criei o meu. E aquilo foi totalmente influenciado pelo movimento punk “do it yourself” (faça você mesmo), que se tornou um mantra na minha vida.

Sou autor de dois livros e assim os fiz por preocupação com o meu redor. Sei que, quando eu não estiver mais aqui, os meus livros continuarão a existir. E isso, de certa forma, é como uma perpetuação de uma linha de pensamento. 

Fiz teatro, sou vocalista de uma banda, faço parte de um projeto social. E tudo pelo simples desejo de querer transbordar. De não aceitar tudo o que a vida me impõe. E, obviamente, isso acaba incomodando muita gente.

O “marginal” de Helio Oiticica não possui o mesmo sinônimo de um criminoso. Não estar inserido dentro de um contexto social com a mesma linha de pensamento da “maioria”, ou não partilhar dos mesmos valores, costumes e normas, não nos torna infratores contrariando a lei e a moral.

Mas, infelizmente, nos dias atuais, só o fato de pensar de forma diferente já é um fator de segregação. E querem saber? Isso não me importa. Se eu precisar caminhar pelo meio-fio das calçadas, eu caminharei. Mesmo que seja para imitar um Gene Kelly "dançando na chuva". Na arte, a transgressão não tem relação com a delinquência.

Quem tem que “andar na linha” é o equilibrista. Sou um ser pensante. E da minha linha de pensamento crítico, sai a arte. Porque a vida, por si somente, me perturba. E ela não cabe dentro de mim.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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