quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Consciência Negra: Pra Que Serve?





Ontem foi o Dia da Consciência Negra e o que, pra muitos, é apenas mais um feriado, pra outros é dia de luta e resistência. E, poucos dias próximo à chegada da data, vi dois exemplos de que, realmente, ainda estamos longe enquanto nação de compreender a lógica do tal Dia de Zumbi.

Vivemos em um país com maioria negra ou mestiça, que cresceu dizendo para si mesmo que não era racista. O mesmo país que menos de um século e meio atrás ainda tinha a escravidão africana ou afrodescendente como principal mão de obra. E que não acredita ter dívida alguma com os negros. Os mesmos que foram arrancados obrigatoriamente de suas terras natais e que se procriaram no Brasil, infelizmente, como forma de manter o vergonhoso regime escravocrata. O mesmo que se envergonha e difama os seus poucos ícones negros, como o supracitado Zumbi dos Palmares. O mesmo que assassina vereadoras negras que carregam a bandeira dos direitos humanos, como Marielle Franco.

O primeiro episódio que tomei ciência foram as críticas a um Papai Noel negro em um shopping paulista. Fomos realmente acostumados a acreditar em um bom velhinho branco de olhos azuis vindo do Polo Norte e em árvores de Natal cobertas de neve e símbolos ligados a uma cultura que não é a nossa. Logicamente que o shopping quis perverter essa lógica e mostrar uma nova possibilidade da leitura da carismática figura natalina. Mas houve quem dissesse que Papai negro "não existe", esquecendo da premissa que, na verdade, o que não existe é Papai Noel...

Outro caso foi com uma amiga minha, negra, que estava em um Uber no Centro do Rio e foi parada em uma blitz. Os policiais revistaram e perguntaram, meio que afirmando, ao motorista: "Indo para a favela, não é?". É triste pensar que na cabeça da maior parte das pessoas, inclusive daqueles policiais (que, no Rio de Janeiro, são negros e mestiços em sua maioria também) pensem que o único lugar provável para uma negra estar indo é uma favela - e, mesmo se fosse, que isso se configura em algo suspeito. Um mix de preconceitos: contra ela, contra a favela e contra a própria sociedade. 

Eu posso não ser a pessoa mais credenciada para falar de racismo. Sou branco, loiro e de olhos verdes. Nunca senti isso na pele, literal e figurativamente. Tenho muito de sangue negro nas minhas veias, embora a genética européia fale mais alto no físico. Mas entendo de preconceito, sim. E, como está em uma camisa que tenho, ninguém precisa ser negro para lutar contra o racismo. Pelo contrário: se luta tiver força entre os possíveis opressores, e não nos oprimidos apenas, maior é a chance de fazer sentido uma celebração como a de ontem.

Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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