segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Erro Fundamental de Pessoa





Comentando com um amigo sobre o fim de um quase relacionamento, falávamos sobre os motivos que levavam alguém a abrir mão de uma relação que, a princípio, parecia tão promissora. E ao enumerar as razões que me levaram a destravar a catraca e seguir a minha vida, lembrei de uma expressão que meu ex (o de verdade, de um relacionamento estável e longo que chegou ao fim porque algumas coisas cumprem bem o seu ciclo de vida e não há nada de errado com isso) usava eventualmente: erro fundamental de pessoa. Meu amigo, um curioso, chegou até mesmo a googlar a expressão para ver se ela realmente existia; como não encontrou nada, decidi roubar descaradamente do meu ex, patentear e, a partir de agora, viver de direitos sobre ela. Tempos de crise, né, mores

Mas a expressão se explica basicamente assim: você tem os seus planos para o futuro. Sonha em ter um relacionamento tradicional, constituir uma família, ter filhos, dois cachorros e um gato, por exemplo. Se bobear, já imaginou a festa de casamento e as cores da decoração do salão de festas. Anseia conhecer alguém que cairá como uma luva nos seus desejos, para que possam, juntos, correr atrás dos objetivos que, a partir de então, serão em comum, um plano a dois. Dá match total com a sua idealização (guardem essa palavra, ela é importante) de pessoa. 

E então surge a pessoa. É alguém legal, bonito, tem um bom senso de humor, gosta da sua companhia, o sexo é bom. Aos poucos, constrói uma pseudo-relação contigo, entra na sua vida e passa a fazer parte do seu mundo. E a pessoa é bem direta no que diz respeito aos seus objetivos de vida: ele até quer ter uma relação que envolva você em sua vida futura, mas tem os seus próprios planos. Quer construir a própria história, que pode ou não incluir outra pessoa nela (no caso, você), já que os objetivos não são excludentes. Mas isso não envolve filhos (de jeito nenhum) mas, com muita boa vontade, por que não alguns animais?

Assim a vida segue, passam os dias, alguns meses. Apesar dos objetivos diferentes, por que não aproveitar o momento e a relação? Mas você tem as suas idealizações e, sempre que pode, tenta plantar no outro os seus próprios desejos e, por isso, atritos acabam surgindo. Uma conquista dele pode te ferir mortalmente, porque não te envolve diretamente. Mas o outro parece genuinamente interessado em você e tenta contornar as incompatibilidades para fazer a relação funcionar. 

Até que vem o golpe final, que pode ser uma coisa muito imbecil, mas que para o outro se transforma na gota d'água, exatamente o que ele precisa para finalizar essa história. Em um dia que você não está muito legal, a honestidade do outro pode finalmente fazer a ficha cair. Não, ele não estava brincando quando disse que, por exemplo, não gostava de maçãs e que não, nunca vai querer maçã de sobremesa. A vida é assim, as pessoas são diferentes e relacionar-se é aprender a aceitar o outro como ele é. Se você não aceita isso, tudo bem, é melhor deixar que o outro vá embora. O que fode as relações são as nossas idealizações do que o outro deveria ser para caberem nas caixinhas que nós desenvolvemos para ele.

Erro fundamental de pessoa

Quando não adianta, aquela pessoa não é para você, uma vez que seus  objetivos de vida são diametralmente opostos. 

Por isso, cada um segue o seu caminho. E, mesmo a contragosto, você inicia novamente a sua busca por alguém que vai caber exatamente dentro dos seus sonhos, planos e projetos de vida. Entrará novamente em uma série de tentativas e erros até encontrar a pessoa que você idealizou e que suprirá todas as suas necessidades. Ou não. E viverá eternamente frustrado, mas convicto de que um dia essa frustração há de dar lugar ao amor ideal (da sua cabeça). 

E vida que segue, porque o show não pode parar. 

Ah, detalhe importante: muitas vezes o erro fundamental de pessoa pode estar em nós mesmos e não no outro. Autocritica, precisamos exercitar.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

2 comentários:

Francine Tribes disse...

Antes eu pensava que quando mais velho, mais chato a gente fica, e por isso fica mais difícil entar em um relacionamento... mas lendo seu texto acho que vou refazer meu pensamento... quando mais velho, melhor a gente percebe essas diferenças e evita cair de novo no erro fundamental de pessoa...

Fabrizio Claussen disse...

Relacionamento ideal, dos sonhos, sempre idealizamos tantas coisas nas nossas vidas. Sonhar é muito bom mas quando não planejamos e algo acontece ao natural, como num passe de mágica, é tão legal ... ih, já estou sonhando. Gostei do texto. Me fez refletir...