sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Momentos Que Não Se Perderão no Tempo





“- Por favor, ore por mim...”

Aquela frase não saía de minha cabeça. Mesmo exausto após um dia estressante no trabalho, naquela noite eu decidi ir andando da estação do metrô da Sans Peña até minha casa. Poderia ter tomado um táxi ou solicitado um Uber, mas preferi caminhar e refletir um pouco sobre o que tinha presenciado minutos atrás. Em alguns momentos, não consegui segurar as lágrimas quando lembrava de seu rosto.

Tinha acabado de subir os degraus da estação do metrô e fui surpreendido por uma fina garoa e um vento frio, atípico nos dias primaveris do Rio de Janeiro. Lembrei de Adriana Calcanhotto e seu “inverno-glacial” do Leblon, transposto para a zona norte tijucana.

Dobrando a esquina da Rua General Roca, a confusão rotineira do eterno esbarrar entre os apressados transeuntes e os nervosos camelôs que, em altos brados, abreviavam seu expediente de trabalho por causa da chuva, tentando, sem muito sucesso, tentar recolher às pressas os seus produtos expostos na calçada.

Foi um pouco mais adiante e, no meio dessa grande balbúrdia, que meu olhar cruzou com o daquela senhora. Com suas mãos em sinal de clemência, tentava fazer com que sua frágil voz se destacasse no meio dos altos decibéis ao seu redor. Estava agachada debaixo da marquise, protegendo-se do frio e das goteiras. Estava com um vestido surrado e sujo que cobria todo o seu corpo e usava uma daquelas máscaras cirúrgicas.

Assim que passei por ela, tentou me alcançar com as mãos e com o olhar. Por pouco não trombei com um casal que gargalhava freneticamente vindo no sentido contrário. Busquei em meus bolsos algumas moedas e entreguei àquela senhora, que me agradeceu com uma lágrima que cortou meu coração.

Segui meu caminho olhando para trás e deixando a imagem daquela pobre senhora se perder no meio da multidão. Por trás de minhas lentes respingadas pela chuva e pelo agravamento do descolamento de minha retina, quase não pude perceber os seus gestos desesperados com as mãos, mas era notória o quanto ela parecia invisível aos indivíduos que transitavam por aquela rua.

Já cheguei a escrever sobre o quanto a invisibilidade de uma parcela da população me incomoda. Publiquei no meu livro mais recente uma crônica sobre dois personagens que conheci no carnaval deste ano, uma senhora que vendia paninhos de prato enquanto catava latinhas de alumínio e um menino de 12 anos, explorado pela mãe. Seres invisíveis que pude enxergar e me emocionar com suas histórias.

Ao me lembrar da história de D. Maria e do pequeno Gustavo – onde e como agora estariam eles? – dei meia volta. Tinha um pressentimento que aquela senhora precisava muito mais de que meras moedas. 

E lá estava ela, ainda implorando em vão, sem ninguém perceber o seu sofrimento. Cheguei bem devagar e fiquei parado a poucos metros dela, que percebendo minha aproximação, fez um gesto com o rosto mostrando o seu cansaço, enquanto as lágrimas não paravam de cair, agora, misturadas com a chuva.

Lembrei daquela célebre frase de Hutger Hauer no filme Blade Runner – O Caçador de Androides antes do personagem morrer, “todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva”, e abaixei ao lado dela. Seu nome era Erika. Tinha a aparência de uma mulher de uns 65 anos e me surpreendi quando revelou sua idade, pois tinha apenas 37 anos. “Eu estou muito acabada, não é?”. Erika tinha uma voz muito frágil, ainda abafada pela máscara, que estava totalmente encardida. 

Contou-me que estava ali desde o entardecer e que somente um rapaz tinha parado para entregar a ela o resto de um sanduíche, mas que não conseguira comer por causa das feridas em sua boca. Envergonhada, mostrou seu rosto por completo ao retirar a máscara e as chagas que a consumiam por completo.

Já tinha visto aquilo antes, na minha experiência como voluntário em hospitais. Aids, sem dúvida. Foi exposta ao vírus através do marido, já falecido. E por meses também travava uma luta contra a tuberculose. Contou-me que tomava os antirretrovirais direitinho, pois sabia que eram os responsáveis por mantê-la viva. Mas já era claro a sua falta de perspectiva. Não havia vaga em nenhum hospital público para que se internasse. Disse que tinha sorte de conseguir ao menos, os remédios vitais. Moradora do morro da Mangueira, estava ali nas ruas pedindo ajuda somente para comprar um pouco de arroz, pois há dias estava sem nenhum alimento em seu “simples barraquinho”. Agradeceu por não ter tido filhos. “Eu me envergonharia muito se eles me vissem assim”

Abri minha carteira e entreguei a ela o que tinha, com a promessa de que ela iria para casa pois não poderia, em hipótese alguma, permanecer ali, sob o frio. Confidenciou-me que, naquele momento, a única coisa que desejava era poder ter forças para viver mais um pouco. “Em pouco tempo não estarei mais aqui. E quem vai lembrar de mim?”

Acho que neste momento, chegamos a chorar juntos e, pessoas ao redor começaram a perceber a presença dela. Afinal, não estava mais sozinha... O que fazia um cara, de roupas sociais ao lado de uma moribunda? Notei que um rapaz já estava nos observando há um tempo parado com seu carro próximo à calçada. Veio até nós e entregou uma nota de R$ 20 em suas mãos trêmulas.

Mesmo sob a máscara, pude perceber o seu sorriso que ficou perdido e esquecido no tempo. Balbuciou algo incompreensível e me agradeceu por parar uns minutos e conversar com ela, pois era isso que estava precisando fazer. Eu e o rapaz ajudamos a levantá-la e fui caminhando, invisível, pelas ruas da Tijuca até nos separarmos.

Enquanto subia a rua, sob a chuva fina, tive a certeza de que eu não me esqueceria dela. Nunca mais.

E, ao chegar em casa, fiz a oração que ela me pediu.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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