terça-feira, 27 de novembro de 2018

Não Deixe o Samba Morrer: Uma Reflexão Pessoal Sobre o Dia Nacional do Samba




Neste domingo próximo, dia 2 de dezembro, comemora-se no Brasil, o Dia Nacional do Samba. E eu, como um cara apaixonado por carnaval, não poderia deixar de falar sobre essa data e o que ela significa para mim e a importância desse ritmo no meu cotidiano. É uma relação quase terapêutica. 

Tudo começa em meados de novembro, época em que a Cidade do Samba, aqui no Rio de Janeiro, começa a ser ainda mais frequentada. É nesse período que começam as inscrições para as escolas de samba para desfilarmos nos mais diversos segmentos e em meio a reencontros com amigos do samba, coreógrafos, conversas lembrando de carnavais passados, outros sons se fundem: alegorias e alas coreografadas cantando os sambas, alas das comunidades ensaiando a harmonia do desfile, o barulho dos ferros sendo soldados, martelos batendo nas madeiras para que, meses depois, todas aquelas estruturas tomem forma de fantasia e sonho no maior espetáculo a céu aberto da Terra. Entenderam por que essa é a minha terapia desde que deixei de fazer análise?

Saio dos ensaios durante a semana bem tarde (como desfilo em muitas escolas, geralmente todos os dias tenho ensaio em uma agremiação diferente), tenho que acordar cedo no dia seguinte para trabalhar, mas, mesmo estando exausto, estou feliz. Leve. Extravaso todos os meus aborrecimentos em prol dessa arte. Uma arte anônima e marginalizada por muitos. Mas que traz uma imensa felicidade a mim e a tantos outros que participam ativamente dela. E é essa última parte que, de fato, me interessa: o bem-estar e a felicidade. 

E nestes 10 anos de avenida, muitas histórias tenho em minha lembrança. Grupos no WhatsApp se formaram e se extinguiram. Amizades foram conquistadas, algumas descobri que não eram de verdade, eram as famosas “relações de carnaval”, e outras, fortaleci. Foram tantos encontros felizes, que as barreiras da Sapucaí se romperam e trouxe comigo pessoas que quero continuar trazendo. Amizades sinceras e momentos tristes que vivemos e conseguimos provar o quão unidos fomos. E isso não vai se apagar. Isso não será esquecido.

Dentre tantas histórias, relembro o carnaval de 2015, no “alto” dos meus 34 anos de carnaval (sim, porque gosto de carnaval desde que nasci) e que considero um dos mais especiais, senão o mais. E olha que foi o primeiro ano que NÃO desfilei no “Sábado das Campeãs”! Mas foi a primeira vez que desfilei na minha escola do coração, aquela descrita no meu perfil aqui do Barba, a Mocidade Independente de Padre Miguel... E numa licença poética, peço permissão para fazer um trocadilho:

“E eu fiquei
No meio do povo, espiando
Minha escola
Perdendo ou ganhando
Mais um carnaval...”

Foi mágico ouvir os fogos na hora que a minha escola aportava na Sapucaí. Meio catatônico, dentro da alegoria esperando o momento de aportar na entrada do Sambódromo, chorei copiosamente. Era minha escola! Renascendo... Tantas foram as críticas, tantos foram os insultos durante alguns anos em que ela amargara por uma administração ruim. Mas estávamos dentro de uma bolha e víamos nada de negativo. Era uma energia tão boa, que saímos ovacionados da Sapucaí. Esse foi o maior prêmio. “A campeã voltou”, era o que escutávamos na passagem de cada setor. E era isso, só isso, naquele momento, que nos importava. 

Dias antes, vivi um dos momentos mais (senão o mais) felizes da minha vida, quando desfilei na Paraíso do Tuiuti (vide a foto que ilustra essa postagem e que já foi alvo de vários posts meus em minhas redes sociais). E esse foi proporcionado por uma pessoa muito especial para mim e é daquelas que o carnaval não separa: minha amiga idolatrada coreógrafa Andréa de Cássia e um sensacional carnavalesco. Um “tal de” Jack Vasconcelos. Já havia ouvido falar em grandes estrelas da arte, grandes gênios do carnaval e suas figuras mitológicas. Sim, esses profissionais são quase mitos. Mas quando se tem a oportunidade de conhecer de perto pessoas como esses dois, eu me confundo sobre o que é de verdade um mito. As maiores estrelas não se põem por conta própria em um pedestal para serem adoradas, elas são postas por seus admiradores. E essa dupla é de uma simplicidade tão grande, que até hoje não consigo distinguir se essa maneira igualitária deles em tratar as pessoas consegue ainda ser maior que o talento inquestionável que ambos têm. E juntos, formavam uma explosão. Meu pescoço e calcanhares ainda tem marcas de queimaduras dos holofotes. E meu coração também lhes é grato até hoje. Mesmo que as dores passem, as marcas desapareçam, não serei mais o mesmo graças à eles.

Por conta dessa experiência, resolvi retomar projetos de vida que estavam escondidos lá no fundo. Coisas que eu achava que não poderia mais fazer, foram resgatadas por eles, Andréa e Jack, sem sequer saberem. Me ajudaram só pelo fato de me confiarem uma oportunidade a reviver sonhos que tinha enterrado na racional desesperança. E à eles, mais uma vez, minhas homenagens e meu muito obrigado.

Aquele ano me trouxe também um encontro de almas. Chama-se Denise Carla. Editora, fundadora, produtora, escritora, dona, presidenta e sei lá mais o que do site Papo de Samba e do grupo carnavalesco Me Beija Félix. Por intermédio do meu amor da vida, Marcos Araújo, conheci essa mulher e seus "colaboradores-pimpolhos-amigos-familiares", que logo me acolheram e generosamente me deixaram fazer parte daquela família de bambas. Não podia ser diferente. Para estar entre os amigos dela, tinham que ser pessoas especiais como ela. Que o mundo se contamine de Denises, Andréias e Jacks. 

Mas conheci outros amigos. Reencontrei alguns de anos anteriores. Os vi nus. Outros tão cobertos que nem o rosto reconhecia, pela tinta da maquiagem. Mas estávamos presos em sintonia pelo coração. Os que quero para sempre, já sabem de sua importância. Já disse isso a eles, mesmo que não os veja com tanta frequência. Outros tantos, foram felizes encontros, que quem sabe, oportunamente vamos desfrutar de novos trabalhos juntos, pois assim gira a roda do carnaval... Novas parcerias vão se formando e se fortalecendo e grandes reencontros acontecendo. Sim, porque depois de 3 anos, retorno à liderança dos premiadíssimos coreógrafos Marcelo Sandriny e Roberta Nogueira, acompanhados de sua trupe de intrépidos assistentes capitaneados pela batuta do mago Paulo Barros e mais um ano ao lado das maravilhosas Fabiane Tavares e Bruna Neves, que se tornaram muito mais que “chefas”, mas amigas para a vida toda.

E ainda há outros tantos capítulos e histórias a serem escritos e vividos. Há o desconhecido que ainda não vejo. Com ele, está sempre a minha esperança por dias melhores. Mas não vamos deixar o apito se calar. Não vamos deixar os tamborins sem fazer barulho. Daqui a pouco começa tudo de novo, mas antes de me despedir até o próximo "post"... bem...antes de me despedir...

“Deixo ao sambista mais novo,
O meu pedido final:
Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar...”

Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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