quarta-feira, 7 de novembro de 2018

O Pior do Brasil é o Brasileiro




Por anos, ouvimos falar que o “melhor do Brasil é o brasileiro”. Não, nobre leitor. Lamento informar, mas o brasileiro é o que de pior temos em nosso país. Sei que posso estar generalizando, mas nesse momento não tenho como não pensar diferente. Tivemos uma eleição surreal há poucos dias e, o que vimos na sequência, foi ainda mais surreal. Somos uma nação que não se olha no espelho e, por isso, se odeia a si mesma.

Aliás, deixe-me apresentar: não sou titular de nenhum dos dias do Barba Feita. Pedi licença para estar aqui hoje, por enxergar um espaço de defesa da Democracia e dos Direitos Humanos, acima de tudo. Acompanho as diferenças que cada um dos colunistas tem no seu pensamento, mas noto que todos têm a preocupação com o ser humano em primeiro lugar. Diferentemente de muitos brasileiros...

A eleição foi realmente sofrida, embora seja claro que os vitoriosos não foram maioria de fato. Mas muitos que não votaram assistiram tacitamente à essa vitória e preferiram se calar, sendo cúmplices de uma das páginas mais tristes da nossa Democracia. É curioso como a Democracia brasileira, tão jovem, já é tão castigada pelo seu povo e seus representantes no Congresso. Dois impeachments (sendo um extremamente controverso, o de Dilma Rousseff) e duas eleições de aproveitadores despreparados (Collor e o futuro líder de nossa nação). Não me surpreende que Democracia seja uma palavra feminina: apanhar de forma calada é o que muitos acham que uma jovem deve aturar.

Mas política não é algo que se prende às eleições ou mesmo aos governos e legisladores. Política se faz no dia-a-dia, no microcosmos onde vivemos. E em relação a isso, meus caros, somos mais podres do que as quadrilhas que estão em Brasília. Desde que a eleição se desenhava para uma vitória da Extrema-Direita, já começaram a brotar relatos de intolerância e ataques à pessoas simplesmente porque eram mulheres, feministas, LGBT, negros e até estrangeiros. Isso não foi um causo de uma pessoa distante, não. Isso não foi fake news. Aconteceu aqui do lado. Eu conheço essas pessoas. Gente que foi mandada de volta para “a Bolívia”, por ser estrangeira; gente que ouviu ataques porque “o feminismo vai acabar”; gente que estava em casa e recebeu ameaça a tiro do vizinho do apartamento da frente simplesmente porque um amigo homem fez massagem nas costas de outro homem – dentro da PRÓPRIA CASA; gente que foi ameaçada por negros pobres na rua porque davam pinta como gays – e só não foi atacada porque tinha policiamento por perto. Aliás, infelizmente, ter a polícia por perto não é garantia alguma, ainda mais no Rio de Janeiro. Existe outra instituição mais preconceituosa e machista do que o ambiente militar e/ou policial?

Pode parecer lugar comum, mas essa galera eleita nada mais é do que o reflexo da sua população. As pessoas realmente se sentem representadas quando alguém fala que vai matar bandidos ou mesmo suspeitos – porque isso é que nem uma contaminação por HIV: a maior parte das pessoas acredita que nunca vai acontecer com elas e, por isso, não se preocupa em se proteger; acha que o problema está simplesmente com o outro. A maior parte das pessoas está cagando quando existe o alerta de que num possível autogolpe militar o Congresso pode ser fechado – porque a maioria sequer entende a importância do poder Legislativo e simplesmente acha (com razão) que a maior parte da corrupção reside no Congresso; logo, por que não fechá-lo (em vez de reformá-lo e fortalecê-lo, o que exige mais esforço e comprometimento)?

Brasileiro é um eterno adolescente: se acha muito maduro e preparado, mas está acostumado a ter um paizão que precisa resolver tudo o que os calos da maturidade apertam. O primeiro pai disse que acabaria com os marajás (acabou traído pelo próprio despreparo e corrupção); o segundo, que acabaria com a inflação (o que cumpriu, embora tenha lançado o país no desemprego e no sucateamento de instituições públicas); o terceiro, que acabaria com a fome e a miséria no Brasil (e não só fez como ainda deu poder aquisitivo a quem nunca antes imaginava, embora tenha sido traído por seu projeto de poder); a quarta foi a mãe e, justamente por isso, a mais injustiçada – fez um mau governo, é verdade, mas ouviu todo tipo de ofensa simplesmente por ser mulher e foi demitida do cargo por descontentamento, não por algo realmente justificado. Chegou a vez do paizão que promete “mudar tudo o que está aí” sem se aprofundar em nada, simplesmente porque o brasileiro sequer sabe “o que está aí” ou quem faz parte “do que está aí”.

Sinto muita pena dos professores de História nesse momento. Muitos deles não conseguiram que seus alunos absorvessem o que ensinaram. Aliás, os livros de História foram acusados pela Extrema-Direita de demonizarem a Ditadura Militar, quando, na verdade, teríamos vivido em um país bem melhor. Desmereceram aqueles que lutaram por democracia, comparando-os a vagabundos. Ignorar os livros de História é o mesmo que dizer que não houve Escravidão ou o Holocausto, por exemplo – aliás, junto com a Ditadura Militar, eram três coisas que eu tinha certeza de que aprendemos e que nunca mais viveríamos; mas essa última, já não tenho tanta convicção.

Sinto muita pena dos professores de História, mas também sinto muita pena daqueles que ensinaram Interpretação de Texto, porque o maior problema está aí. Falta ao brasileiro isso. Falta discernimento e capacidade crítica – isso é tão difícil de ensinar, é verdade.

Eu vivi para ver mulheres que são donas de suas próprias residências, de seus carros, que têm carteira de motorista e que estavam declarando o seu voto comemorarem o suposto “fim do feminismo”. O que pode ser isso se não a falta de interpretação do que é feminismo?! Eu também vivi para ver LGBT apoiando candidatos que diziam que eles deveriam apanhar em público e que eles só existem por falta de porrada; vi um homem trans gay apoiando gente que é contra a sua existência – e que, provavelmente, se estivesse no poder antes, teria impedido a sua transição. E, muito disso, por causa de uma decepção com a Esquerda. O brasileiro sequer sabe o que é Direita ou Esquerda na política – não sabem de História nem de Interpretação de Textos, lembram? –, mas entende de ódio, e nesse momento é preciso odiar um inimigo. Pois o problema sempre está no inimigo, nunca dentro de nós mesmos, não é verdade?

Meu medo maior nesse momento não está em Brasília. Se a Democracia realmente for mantida – e hoje temos muito mais mecanismos para isso do que em 1964 – viveremos tempos difíceis, mas, ainda assim, com direitos. O meu medo maior está no vizinho do outro lado da rua, no primo e na tia raivosos do grupo de WhatsApp da família, na pessoa que cruza com você na calçada. Essas pessoas se sentiram legitimadas para simplesmente agredir quando der na telha – assim como, sob a batuta de Donald Trump, explodiram os ataques a latinos nos EUA. Está no negro, no pobre, na mulher, no viado, no trans que não entende nada do que a Extrema-Direita está aí para fazer de verdade. Tudo isso porque o pior do Brasil é o brasileiro. Ou o que reside dentro dele e que estava sufocado; o machismo, o racismo, a misoginia, a homofobia, a transfobia... Todos leões famintos, à espera do seu domador baixar a guarda para atacar.

A tendência do ser humano à barbárie é confirmada. Foi assim quando o furacão Katrina passou nos EUA e, diante da falta do Estado, as pessoas se acharam no direito de roubar, saquear, estuprar e matar pelas cidades. Vemos o mesmo agora: a faixa presidencial ainda nem mudou, mas tem gente que acha que leis de proteção já caíram e que a temporada de caça já começou. O 17 confirmado nas urnas foi a senha para isso. Não existe mais domador. Os leões estão à solta.

O pior do Brasil é o brasileiro. Porque nós não aprendemos nada de História. Nem de Interpretação de Texto.

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Zico Camara  
Zico Camara é filósofo autodidata, conversador de botequim e autor nas horas vagas. Pode não parecer, mas é um otimista e apaixonado pelo seu país.
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