terça-feira, 6 de novembro de 2018

Outubros...




“...Menino, acorda e vem olhar
O sol não tarda em levantar...
Outros outubros tu verás
E outubros guardam histórias...”

Esse fragmento da música Círios, de Vital Lima, traduz em quatro estrofes 38 outubros da minha vida. Apesar de idolatrar julho, o mês em que nasci (sou muuuuito leonino!), cheguei à conclusão na última semana que os fatos que mais marcaram a minha vida, e divisores de muitas águas, ocorreram nos meses de outubro. Resolvi, então, nesta primeira terça-feira de novembro, fazer um breve retrospecto dessa trajetória.

Era 29 de outubro de 1993, quando, aos meus 13 anos, acordei para viver o pior dia da minha vida. Minha mãe (genitora) acordara por volta das 5 da manhã para passar roupas para o meu irmão mais velho trabalhar quando, sem esperar, começou a sentir fortíssimas dores na cabeça. Em questão de minutos ela estava caída no chão com a língua enrolada, principiando um derrame cerebral. Amigos auxiliaram a levá-la ao hospital, em uma cena que não sai da minha cabeça até hoje. Cerca de 2 horas depois, lembro do vizinho que a levou entrar no quintal da minha antiga casa com um semblante pesado de tristeza. Era o anúncio de sua morte. Minha mãe tinha apenas 43 anos. Vivia uma relação instável com meu pai e por essa razão ela era a provedora de seus quatro filhos. Meu irmão mais novo tinha 6 anos. Resumindo, meu pai desapareceu de vez no dia de sua missa de sétimo dia, e eu e meu irmão passamos pouco mais de uma semana abandonados, inclusive sem comida. Nos últimos dois dias de abandono, nosso jantar era uma “farofa doce”, onde os ingredientes eram os últimos que existiam em nosso armário: óleo velho de frituras anteriores, farinha de mandioca e um resto de açúcar. Dias depois, fui resgatado por minha madrinha, irmã da minha mãe, e hoje a maior referência, para mim, de ser humano.

Muito tempo se passou, muitas experiências vivi e, ao completar 18 anos, eu fazia estágio numa grande empresa de telefonia quando, prestes a acabar o contrato, não conseguia emprego formal por conta das pendências com o serviço militar. Minha mãe (madrinha), nesta época, tinha um negócio e foi como recepcionista de um serviço radiológico do qual ela era uma das sócias que comecei a traçar minha vida profissional. Foram seis anos trabalhando lá até que em outubro de 2002 consegui meu primeiro emprego de carteira assinada. Fui recepcionista, faturista e coordenador desta nova clínica num curto espaço de um ano. No ano seguinte, fui desligado e iniciei em uma nova empresa, também como recepcionista, pois entendi que lá, mesmo dando alguns passos para trás, a possibilidade de crescimento seria bem maior. Trabalhei entre julho e setembro como um prestador de serviços terceirizado até que em outubro de 2003 fui contratado formalmente pela empresa. Menos de um ano depois, em abril de 2004, fui aprovado em uma seleção para trabalhar numa grande empresa do ramo de saúde. A segunda maior autogestão do país. O cargo era auxiliar administrativo. Em outubro de 2004 tive a minha primeira promoção nesta empresa para coordenar a mesma equipe da qual fui contratado. Cinco anos depois, em outubro de 2009, tive mais uma promoção, me tornando Executivo de Negócios.

O mês de outubro de 2009 foi de grandes emoções. Foi neste mês que fiz minha primeira viagem de “lua-de-mel” com aquele que se tornaria o grande encontro de almas da minha vida. Ainda neste mesmo mês e ano, juntamente com a promoção na empresa, recebi o comunicado de convocação para meu emprego público. Sim, agora era oficialmente funcionário público federal. Foi um mês de dor também. Uma outra dor já superada que prefiro não expor. Foi, ainda em outubro de 2012, que assinamos o tão sonhado contrato de financiamento do nosso imóvel próprio.

Minha carreira ascendia confortavelmente, quando decidi em outubro de 2014 pedir demissão e iniciar em uma nova empresa. O cargo era menor e uma das questões levantadas pelo entrevistador era “por qual razão eu deixaria de ser executivo para me tornar um mero analista”. “Por almejar algo além do cargo pelo qual estou sendo contratado” – respondi. Um ano depois, estava em (mais uma) lua-de-mel, quando fazia uma selfie dentro da Lagoa Paraíso em Jericoacoara e na tela do telefone aparece o nome da minha chefe. “Putz, sério?” – pensei em voz alta. Fiquei alguns segundos pensando se deveria atender e relutante disse: “oi!”, com a voz atravessada. Do outro lado uma voz animada me recepciona: “poderia falar com o novo supervisor da minha equipe? ”. Sim! Em outubro de 2015, literalmente no paraíso, e eu recebendo a notícia de que fui promovido! Propus ao meu amor imediatamente voltarmos para a areia para comemorar e, ao chegarmos, ele fazendo um check nas mensagens do celular, viu que uma delas era sobre a proposta de um novo emprego. Ah... os outubros....

Chegamos em outubro 2018. Uma nova função no trabalho e com um grande desafio fui incumbido. No meu aniversário de 4 anos nesta nova empresa. E foi na penúltima semana, no dia 24, que meu grande amor realizou mais um sonho: o lançamento do seu segundo livro. 

No dia último dia 27, fui convocado para fazer um teste e participar do elenco de uma peça que estrearia no dia 2 de novembro. Fui aprovado e de imediato a diretora propôs: iremos fazer um ensaio aberto ao público e quero que você fique hoje já para participar. Sim, depois de quase um ano, o outubro marca a minha volta aos palcos. 

No dia 29 de outubro passado, fez 25 anos que perdi minha mãe. E apesar desta ter sido a maior de todas as perdas, tem sido anos bons. Perdas e ganhos. Sempre ouvi dizer que os mistérios divinos só descobrimos com o tempo. Nunca me senti um coitadinho pelas agruras da vida. Resolvi fazer do pior outubro da minha vida, um motivo de vitória para todos os outros outubros que estariam por vir. E assim tem sido, graças à Deus. Use seus momentos ruins para escrever uma nova história a cada dia, lembrando de se alimentar diariamente, ou sempre que possível, de bons sentimentos e energias boas, pois a vida é uma grande colheita de tudo que plantamos. Eu resolvi fazer nas primaveras dos meus outubros a colheita somente de flores.

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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