sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Rapsódia Boêmia





Nem preciso dizer o quanto fiquei desidratado assistindo Bohemian Rhapsody, o filme que conta a trajetória do Queen, com o foco, obviamente, em Freddie Mercury.

Assim como os Bunnymen, o Cure e David Bowie, o Queen até hoje tem uma representação muito forte em minha vida. Foram eles os responsáveis por me apresentarem ao mundo mágico dos grandes espetáculos do rock´n´roll de arena. Fugi de casa para vê-los, em 1985, no primeiro (e clássico) Rock in Rio.

Nunca esqueci a data: 12 de janeiro (um sábado). Antes, me empolguei com aquela multidão e parecia uma criança encantada em um imenso parque de diversões. Acabei nem prestando muita atenção no Whitesnake, de David Coverdale, e no Iron Maiden, que eu morria de medo por causa das sinistras capas. Aliás, o Iron foi uma banda que comparando com a atualidade, eu achava que era um tipo de Ghost, com os shows acontecendo como uma espécie de celebração ao demônio, ou uma missa negra. Hoje vejo o quanto éramos inocentes sem os YouTubes da vida e um mundo sem internet. Lá eu vi que a "donzela de ferro" era deveras inofensiva.

O Queen entrou bem tarde e naquele momento eu sabia que estaria fudido. A Barra da Tijuca era o fim do mundo, não existiam celulares e eu tinha a certeza absoluta que levaria uma surra homérica quando chegasse em casa após minha mãe descobrir a peraltice de que o trabalho de recuperação escolar em pleno janeiro era uma farsa. 

Naquela noite eles abriram com Tear it up e passaram por clássicos como Under Pressure, Somebody to love, Killer Queen, Love of my life (que se tornou um ícone coma voz de 270 mil pessoas fazendo o coro), Another one bites the dust, Radio Ga Ga, Crazy little things called love, I want to break free, We will rock you e We are the champions.

Mas foi aquela música estranha chamada Bohemian Rhapsody, misturando o mundo da ópera e das guitarras estridentes que me fizeram entender, logo na primeira lição, que rock era atitude. Freddie, com aquele seu jeitão másculo como se tivesse saído dos quadrinhos gays de Tom of Finland, era o verdadeiro frontman. Nunca tinha visto algo assim, com aquela intensidade sonora. 

A surra veio (aliás, a maior surra que já tomei na vida) à tiracolo quando cheguei enlameado na manhã do dia seguinte, com o sol à pino e meu cabelo todo duro de tanto gel com glitter.

Mas as marcas dos chinelos e das unhadas, que me deixaram roxo por algumas semanas, também não me deixaram esquecer a emoção em poder ouvir aqueles decibéis acima do permitido. E ouvir aquela voz... foi um privilégio para poucos. Na época eu tinha acabado de fazer 15 anos, hormônios em ebulição e usava um bigodinho ridículo tentando imitar Mercury, mas que na verdade parecia muito mais o Prince.

Fiquei arrasado quando, quase sete anos depois, soube da morte de Freddie, vítima da Aids, ainda sem tratamento e fatal naquele tempo. Um dia depois de divulgar oficialmente que estava com a doença, Freddie se foi, mas, sem dúvidas, sua música ficará para sempre. É muito louco pensar que aquela cara com dentes tortos, nascido em uma região da Tanzânia, na Africa Oriental, se tornaria uma das figuras mais importantes da história da música, quebrando convenções e estereótipos e se afirmando como um ícone amado em todo o planeta.

Se vocês ainda não assistiram Bohemian Rhapsody, corram. O filme, apesar de umas falhas cronológicas (como o próprio Rock in Rio), é exuberante. O ator Rami Malek encarnou todos os trejeitos e o deboche de Mercury, em uma interpretação magistral e a direção de arte está perfeita.

E, assim como a banda me fez viajar 33 anos atrás, certamente ainda vai continuar inspirando os amantes da boa música.

Ah, e de presente, aqui pra vocês, a apresentação da banda, no Rock in Rio de 1985, com a épica canção que também inspirou o longa. E que Deus continue salvando a rainha!


Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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