quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Super Drags: Vale a Pena Assistir?




Vocês já pararam para assistir Super Drags, na Netflix? Se você vive em outro mundo: trata-se da animação brasileira com apenas cinco episódios (curtinhos de menos de meia hora) em que três drag queens heroínas salvam o mundo em seu dia-a-dia. Recheado de "humor gay", o desenho (voltado para maiores de 16 anos, como reiterado por diversas vezes) tem muitos pontos fracos, mas demonstra um valor enorme no quesito representatividade.

Patrick, Donizete e Ralph são amigos que trabalham em uma loja de departamentos mas que, quando o mundo entra em perigo, acionam a "Hora de Montar" e se tornam Lemon, Scarlet e Safira, que vêm para dar "o close certo". Comandadas por Vedete Champagne (dublada pela famosa drag Silvetty Montilla) à distância (estilo As Panteras), elas tem em Goldiva (voz de Pabllo Vittar) seu ícone drag máximo. 

Os maiores vilões são Lady Elza (pra quem não sabe, no pajubá - famoso dialeto usado entre gays e trans, principalmente, que ficou famoso no último Enem - elza é uma referência a crime, enganação), que tenta roubar a energia highlight dos gays (inclusive de Goldiva, e o profeta Sandoval, do Templo Octogonal Gozo dos Céus.

A referência ao combate que a comunidade LGBT recebe de grupos religiosos, notadamente os neopentecostais, é muito clara aqui. Um dos méritos de Super Drags é não se focar em um culto já existente. Na verdade, nem existe uma clareza se o templo seria evangélico e Sandoval seria um pastor. Em seu culto, ele fala de dinossauros, por exemplo. Uma forma de não fulanizar, embora o recado esteja dado.

A animação, como já mencionei, peca em alguns momentos em seu roteiro e promete ser mais engraçada do que realmente entrega. Há muitas referências que apenas no meio LGBT poderão ser pescadas, principalmente em pajubá - o que não chega a ser uma fraqueza, já que o desenho é voltado para um nicho. Mas as dublagens estão muito boas - me surpreendeu o trabalho de Pabllo, principalmente - e a série tem um mérito fundamental, que pouquíssimas outras chegaram a tocar (talvez Glee tenha feito de forma melhor): como viver no mundo gay é cruel, tanto externa (intolerância por parte dos héteros) quanto internamente (dos próprios LGBT).

Em poucos episódios, vemos lançar luz sobre questões como aceitação do próprio corpo (principalmente por conta da gordofobia); a heteronormatividade e o preconceito contra "pintosas"; a falta de aceitação pela família, inclusive com expulsão do filho de casa quando se descobre que ele é gay; a possibilidade da "cura gay", uma tentativa a qual alguns recorrem simplesmente para serem aceitos; a perseguição religiosa, como mencionei acima; a competição dentro do meio LGBT; entre outros...

Em suma: vai lá conferir. Pode não ser brilhante, podem ter coisas melhores para entreter. Mas Super Drags tem o seu valor, principalmente por todo um esforço de lançar algo tão difícil de produzir com tão pouco apoio e já tão polemizando antes mesmo de estrear. Tudo isso num momento crucial da nossa nação. Vale pelo dever cívico de quem é ou apoia a causa LGBT.

Leia Também:
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookInstagram


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: