segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Uma Pequena Metáfora Sobre Nossos Caprichos





Maria Lúcia (era uma menina linda) sempre teve um sonho: possuir determinada boneca de pano, seu objeto de desejo, igualzinha à de sua amiga e vizinha, Ana Clara, que desfilava com sua boneca para todos os lados. Pediu, implorou, mas o pai não podia comprar a dita cuja pois, como boa parte dos brasileiros, tinha problemas orçamentários. Crises financeiras, a gente sempre vê por aqui. 

Foi assim que, um belo dia, a triste e infeliz Maria Lúcia encontrou aquela boneca que tanto queria, largada no chão parquinho. Eufórica, Maria Lúcia nem se atentou que aquela era a boneca de Ana Clara e, sem se importar, brincou feliz da vida por algumas horas até que a verdadeira dona apareceu. Maria Lúcia chorou, esperneou, mas sabia o que era certo a ser feito e entregou a boneca para Ana Clara, sofrendo ao ver a amiga levando a "sua" filha para longe dela mais uma vez. 

O tempo passou, Maria Lúcia cresceu, apareceu, mas a vontade de ter a boneca permaneceu, assim como as lembranças dos momentos que passou com a boneca naquele dia do parque. Mais velha, vivida, decidiu: queria uma boneca igual a que tanto sonhara quando criança. Procurou em lojas de brinquedos, de antiguidades e, nada; nunca achou uma boneca como aquela que tanto desejou.

Foi então que um dia, casualmente, reencontrou Ana Clara, a antiga vizinha e dona da boneca que brincara no passado. Foi um bom encontro, cheio de nostalgia, que revelou, durante a conversa que a amiga ainda guardava o brinquedo num velho sótão de coisas usadas. E, acreditem, ela disse que poderia dar a boneca para Maria Lúcia que, encantada, aceitou o presente e assim, finalmente, realizou o seu tão esperado sonho.

Em casa, Maria Lúcia pegou a boneca, brincou com ela, reviveu os bons momentos, mas algo parecia errado. A boneca não era dela. Será que ela deveria tê-la realmente? Será que ela QUERIA aquela boneca? Será que a boneca esqueceria a antiga dona e seria verdadeiramente sua? 

A boneca, que não se importava com a dona antiga, ficou lá, sem saber o que iria acontecer. Largada, tomando poeira, simplesmente porque ousou, um dia, ter sido de outra pessoa. 

E Maria Lúcia foi viver sua vida, esquecendo-se enfim completamente daquela boneca e criando um carinho que ela não imaginava possível por um velho ursinho de pelúcia que fora de seu irmão e que ela sempre quis para si. Porque não importava o brinquedo. Só os seus caprichos.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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