sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

A Última do Ano




Hoje escrevo minha última coluna do ano. E por mais que queiramos escrever algo diferente, acabamos desembocando no óbvio e traçando um balanço dos doze meses. Na verdade, comecei a fazer isso semanas atrás. Se você é leitor assíduo do Barba Feita, deve se lembrar da coluna O Desafio de Viver o Tempo e É Verdade Esse Bilete, que já faziam, de certa forma, uma retrospectiva do ano que está terminando e, como deveríamos lidar com toda essa fluidez da contemporaneidade. Afinal, vamos comemorar daqui a pouco a chegada de 2019, vamos piscar os olhos e, quando nos dermos conta, já estaremos novamente comemorando a chegada de 2020.

Quando eu era bem pequeno, ficava fascinado com os fogos de artifício na virada. Minhas tias me acordavam e eu, sonolento, despertava quando elas gritavam apontando para o céu: “olha lá o ano velho indo embora!!!! Olha o ano novo chegando!!!”. Na minha cabeça infantil, eu dava um jeito de personificar aquele momento. Imaginava o ano se despedindo, com longas barbas brancas, caminhando com dificuldade e dando lugar a um bebê risonho e já saltitante. De certa forma, tentava classificar os meses do ano com as fases da nossa vida. Janeiro era a primeira infância; fevereiro era o mês das brincadeiras – sempre associadas ao carnaval; março era a descoberta da adolescência; e por aí ia contando o tempo.

E o mais engraçado é que ainda continuo fazendo essas conexões. Os primeiros meses estariam relacionados com os mais divertidos, como uma associação à vida. A diferença é que vamos envelhecendo a cada ano, né? Então, até como uma maneira de sobreviver aos ciclos, não vejo mais o ano velho como um ancião terminal, mas sim, como uma personificação da experiência adquirida, sendo substituído por outro, mais jovial e cheio de gás, mas ainda assim, experiente e com um brilho de esperança no olhar.

Em 2018 precisei me afastar de algumas pessoas que me faziam muito mal. Apesar da dor da perda, foi necessário. Muitas máscaras caíram em uma eterna revelação decepcionante. Outros, desapareceram por si, somente. Apesar do esforço em tentar uma aproximação, se esvaíram no tempo, apesar das lembranças maravilhosas terem permanecido. Mas também tive a oportunidade de conhecer pessoas incríveis que, certamente, farão parte de meu ciclo de amigos inseparáveis. E amarrei ainda mais alguns laços que já fazem parte de minha vida e que nenhum indivíduo conseguirá desvincular.

Sambei mesmo sem saber sambar, cruzei a Sapucaí com o dia raiando e, mais uma vez, me comovi com a visão dos desfiles, o brilho das fantasias e a garra dos foliões. 

Retornei a Floripa, São Paulo e Brasília e reencontrei amigos queridos.

Gravei Victoria, uma canção com meus amigos do OverEnd, para um tributo ao The Fall, uma banda que amava de paixão, desde minha adolescência, e criei outra banda, a SpeedRacer. Com a Speed, fizemos cerca de 50 shows e me diverti muito ao relembrar clássicos oitentistas do rock nacional, temas de desenhos animados e nossas versões inusitadas como, por exemplo, a que misturamos Roberto Carlos e Guns & Roses. 

Perdi o medo de cruzar o oceano e conheci Londres, um lugar que fazia parte de minha imaginação desde criança. Pude constatar, respirando história, o quanto é um lugar extraordinário. Me perdi propositalmente pelos undergrounds, túneis e clássicos pubs, me emocionei com o memorial ao David Bowie, sentei no meio da Abbey Road onde os Beatles também atravessaram e me senti em casa nos labirintos de Candem Town e aqueles pirulitos verdes de THC. Todos os dias, quando abria a janela do hotel e me deparava com aquela clássica paisagem da famosa London Bridge sob o fog, me perguntava: “será que isso está acontecendo de verdade?”

Também morri de frio em Paris, chorei no Louvre com os séculos de arte, estive frente a frente com uma obra do Bosch, me arrepiei na Capela da Medalha Miraculosa, dancei na Champs Elysées, fiquei trêbado em Montmartre após um porre de vinho em uma mamadeira (sim, uma mamadeira), esbarrei com um legítimo corcunda exatamente em frente à Notredame; fui até ao último andar da torre Eiffel, mesmo com pavor de altura só para causar uma surpresa, vi os cristais de neve pela primeira vez cobrindo minha pele e, no Père Lachaise, cantei baixinho The End para Jim Morrison e beijei a lápide de Oscar Wilde.

Me senti como Tom Hanks quando perdi o voo de volta, ficando preso no aeroporto de Madri, mas conheci pessoas adoráveis que fizeram das horas de ócio, momentos agradabilíssimos.

Vi filmes maravilhosos, shows inesquecíveis, abracei e beijei demais os meus amigos, conheci o Dave McKean – ilustrador das capas de Sandman, perdi a vergonha e fiz um ensaio peladão para o Ophelia's Project, um trabalho sensacional do amigo Sergio Santoian, e lancei o meu segundo livro Liberdade para os lactobacilos vivos!, que só tem me dado orgulho pelos elogios que tenho recebido – ah, dia 4 de janeiro vai rolar um novo lançamento, para quem perdeu o primeiro.

Enfim, 2018 está se despedindo. E mesmo com tantas complexidades e estranhezas – afinal, foi o ano do retorno oficial dos preconceitos velados – soubemos driblar os obstáculos. Eu sempre digo que, como um contraponto às adversidades, sempre costumam surgir novidades encantadoras. Já prevejo novos movimentos. Uma nova versão da contracultura está surgindo no novo horizonte.

Adeus, ano esperto. Feliz ano novo (e ainda mais sagaz).

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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