terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Dezembro Vermelho: Luta, Consciência, Proteção e Amor




Em 2018 comemoramos 30 anos em que foi instituído o dia 1º de dezembro como Dia de Combate ao HIV. A data foi escolhida pela Organização Mundial de Saúde e é celebrada anualmente desde 1988 no Brasil e, pela vultuosidade de ações que passaram a acontecer ao longo do calendário mensal, a Comissão de Assuntos Sociais (CAS) aprovou o PLC 60/2017, estabelecendo a campanha nacional de prevenção ao HIV/Aids, incluindo outras infecções sexualmente transmissíveis, estendendo por todo o mês, denominando o evento como Dezembro Vermelho

E como eu venho trazendo colunas de campanhas com discussões sócio-temáticas como Outubro Rosa e Novembro Azul, resolvi, incluir esta, que apesar de ter um foco maior na prevenção do HIV, seu escopo engloba também outras doenças sexualmente transmissíveis e garantir a assistência das pessoas que vivem com o vírus da Aids. 

Percebemos que mesmo com esses trinta anos de avanço nas pesquisas, tratamento e informações, a gente tem observado é que as pessoas ainda estão se infectando. Cheguei a falar um pouco sobre isso no meu texto de 16 de outubro desse ano, na coluna Vamos Falar Sobre PrEP, quando discutimos o assunto e elucidamos algumas questões em que uma delas é que o referido tratamento preventivo, não nos protege de outros males sexualmente transmissíveis além do HIV. 

Há muitas campanhas de prevenção e tratamento pela internet. Mas hoje, queria aproveitar para falar do convívio social e individual de uma pessoa com essa patologia específica. O fato é que a sociedade enxerga as doenças sexualmente transmissíveis, num geral, como se fossem uma penitência. Por serem relacionadas ao sexo, há esse preconceito maior. Hoje, as pessoas que possuem doenças desta natureza acabam escondendo porque a sociedade implanta crenças limitantes. Existem muitos casos de casais que convivem com doenças sexualmente transmissíveis, que fazem acompanhamento psicoterápico, e com uma série de cuidados, mas que deveriam ser cuidados que todos os casais deveriam tomar, pois sequer conversam entre si.

Quando os primeiros casos da Aids surgiram, no início dos anos 1980, ninguém sabia exatamente do que se tratava. Como a maioria das vítimas era de homens homossexuais, a "doença misteriosa" rapidamente ficou conhecida como a "peste gay". Depois, quando perceberam que não eram só gays que adoeciam, passaram a colocar a culpa também nos haitianos, hemofílicos e usuários de drogas. Mas não demorou muito para que as pessoas percebessem, enfim, que o local de origem ou a orientação sexual não eram "pré-requisitos" para contrair o vírus. Hoje, 35 anos após o começo da epidemia, sabe-se que o HIV pode atingir a todos e todas, sem distinção de gênero, classe, raça, origem ou orientação sexual.

Apesar disso, muitos pré-conceitos ainda resistem sobre as pessoas que vivem com o vírus. Mesmo hoje, superado o pior momento da epidemia e com avanços na medicina que permitem ao soropositivo viver bem e com saúde, diversos equívocos que sobreviveram ao tempo ainda fazem com que os portadores do HIV não consigam falar sobre isso abertamente, com medo de não conseguirem emprego (ou perder o que já tem) ou dos amigos e familiares se afastarem. 

As pessoas infectadas devem buscar apoio psicológico, se perceberem não ter capacidade de lidar com isso sozinhas, ou mesmo de dividir com alguém essa situação. É necessário quebrar as crenças e se existir muita dificuldade procurar fazer terapia, porque, até se recolocar, se empoderar, é um processo. Então, quem recebeu o diagnóstico deve se colocar como um ser possível, capaz e que tem direitos como todas as demais pessoas que não possuem DST´s. São doenças como todas as outras. E a vida continua, as relações continuam. E muitas das vezes, essa infecção não está ligada à promiscuidade (e se for?). 

Poucos sabem, mas é muito mais difícil ser infectado pelo HIV com um soropositivo do que com uma pessoa que desconhece sua sorologia. Isso porque, graças ao tratamento, a carga viral de muitas pessoas que vivem com o vírus está indetectável, ou seja, com menos de 40 cópias de vírus por mililitro de sangue. Isso é insuficiente para que não haja a transmissão. Para se ter uma ideia, se um soropositivo com carga viral indetectável há pelo menos um ano fizer o teste de HIV, o resultado tem muitas chances de ser negativo. Estudos internacionais já mostraram que um soropositivo em tratamento e há seis meses com a carga viral suprimida tem 96% menos chances de transmitir o vírus durante o ato sexual. Essa, que foi eleita a descoberta científica do ano em 2011 pela revista Science, é também um dos mais importantes passos contra a discriminação de soropositivos e um salto na qualidade de vida de quem vive com HIV.

O HIV é transmitido por meio da troca de fluidos corporais, porém saliva e suor não são uns deles. Esse é um mito antigo, porém, que ainda resiste no imaginário popular. Apenas sangue, sêmen, secreções genitais e leite materno possuem concentração de vírus suficiente para infectar outra pessoa. Portanto, nunca é demais lembrar que as únicas formas de transmissão do HIV são: relações sexuais desprotegidas - anal, oral ou vaginal -, transfusão de sangue, compartilhamento de seringas ou de mãe para filho, em caso de grávidas que não estejam em tratamento preventivo durante a gravidez (transmissão vertical). Que fique claro então, que não se pode contrair HIV por nenhum outro meio que não sejam esses!

Graças aos avanços no tratamento, hoje quem tem o HIV pode morrer de velhice. Ou seja, os soropositivos não necessariamente irão morrer em decorrência da AIDS. Antigamente, quando não havia medicamentos eficientes para barrar a ação do vírus, o soropositivo eventualmente desenvolvia a doença e padecia em decorrência das infecções oportunistas, principalmente pneumonia, tuberculose e sarcoma de Kaposi - um tipo muito raro de câncer de pele. Hoje, no entanto, os medicamentos antirretrovirais disponíveis impedem que o HIV se multiplique e espalhe pela corrente sanguínea, freando a replicação do vírus. Com isso, ele permanece adormecido dentro do organismo e, caso o tratamento seja seguido à risca, pode nunca se manifestar. Essa nova realidade trouxe alívio para milhões de pessoas ao redor do mundo que hoje vivem com o vírus. Ao mesmo tempo, porém, o avanço da medicina parece ter alimentado a crença de que se já que é possível tratar e viver bem com HIV, a melhor solução é infectar-se de uma vez para poder fazer sexo sem camisinha sem preocupações. Por favor, não faça isso! Primeiro porque o HIV não é a única doença sexualmente transmissível que existe. Outras infecções, como HPV, gonorreia e sífilis estão circulando por aí e a incidência não é baixa. Segundo, porque os medicamentos antirretrovirais usados para tratar HIV podem trazer efeitos colaterais indesejados, como ganho de peso, enjoos, diarreia, entre outros.

Além disso, a carga emocional de uma pessoa que vive com HIV é frequentemente abalada pela discriminação que ainda atinge os soropositivos. Infelizmente, muitas pessoas ainda acreditam que não podem ter contato e muito menos se relacionar afetivamente com uma pessoa que vive com HIV. Fora isso, alguns países, como o Canadá, não permitem que soropositivos estrangeiros viajem a trabalho ou estudo para lá, uma vez que teriam que fazer uso dos medicamentos oferecidos pelo governo local.

Por fim, amigos e amigas, não podemos generalizar o contexto que levou uma pessoa a contrair o vírus HIV, pois existem diversas formas de infecção e mais diversas ainda situações que podem levar ao contágio. Contudo, se culpar por algo que já aconteceu não resolve o problema. Pelo contrário, dificulta o acesso ao tratamento e afeta a qualidade de vida. O importante após o diagnóstico é entender que a partir deste momento o paciente terá a responsabilidade em seguir o tratamento para manter sua saúde em dia.

Temos dentro de nós um grande acervo de capacidade de lutar, capacidade de tornar-nos grandes vencedores, mas que desconhecemos. Então, por que não usar dificuldades como um motivo maior para fazer essa descoberta? Será que não é hora de rever primeiramente os nossos próprios preconceitos? De buscar valores até então perdidos? Hoje, para controlar o HIV/Aids, existem duas grandes armas: Uma delas vem do avanço da ciência. Os antigos e novos medicamentos e tratamentos podem prolongar em muitos anos o desenvolvimento ou o avanço da doença. O outro ingrediente importante encontra-se em nós mesmos, ou seja, o verdadeiro sentido e o amor pela vida. Seja pela sua que possui a síndrome, seja do outro que precisa conviver com você, te respeitando acima de tudo. A pessoa diagnosticada com HIV não deve ver o fim se aproximar, mas o começo, onde o seu principal motivo é o da luta e conquista. E quem está ao seu lado precisa exercer seu papel de amor, cuidado e carinho.

A luta contra a morte deve ser esquecida.

A luta pela vida deve ser reforçada.

Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Fabiano Alvares disse...

Excelente texto! Bem didático e esclarecedor!!!
Parabéns