segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Então é Natal. E o Que Você Fez?




Eu realmente não ligo para o Natal. Devido à minha formação religiosa, em minha casa a véspera e o 25 de dezembro sempre foram dias comuns, como outros quaisquer do ano. E, talvez por isso, eu não seja ligado na data, mesmo tendo deixado o caminho da religião há muito tempo para trás. 

Nesse ano, em específico, tem muita gente preocupada com os encontros familiares de Natal. Com o país que se partiu devido ao ano eleitoral e todo o embate gerado pelo surgimento, crescimento e vitória do inominável, os ânimos se alteraram e muitas relações foram pro espaço. Eu, que sendo bem sincero, não sou lá a pessoa mais disposta a fazer o papel de família de comercial de margarina, particularmente ligo o foda-se para o assunto. Cortei relações com muita gente, não faço questão de reaproximação e vida que segue; e tem seguido até melhor, apenas para constar. Mas que tem gente sofrendo com isso, ah, como tem. 

Assim, pensando em todo o significado religioso que norteia o Natal, pelo menos para os (que se denominam) cristãos, me peguei pensando: e agora, José? Teoricamente, o nascimento de Cristo em 25 de dezembro (ou de Hórus, ou de Mitra, também deuses mitológicos como Jesus, cujo nascimento era comemorado na mesma data - e antes do filho do Deus cristão!) é o momento de comunhão, de perdão, de se repensar as (más) ações e focar em mudanças. Afinal, Deus (o cristão) enviou seu primeiro filho para nascer humano e purificar a todos por seus pecados e foi nessa data que, há mais de 2.000 anos (mentira, nem foi, porque pelos cálculos básicos, Jesus, se realmente existiu, teria nascido entre setembro e outubro, mas esse não é o assunto aqui) ele surgiu na Terra. Assim, como ficamos?

Pois sabem a musiquinha que dá título a essa coluna? Sim, a música famosa e que, usando o dia de Natal, nos pergunta: o que você fez? Será que, como é Natal, vale mentir ou temos mesmo de falar a verdade? 

Porque teve gente que só fez merda nesse ano de 2018. Criou (ou espalhou) fake news. Odiou o próximo. Odiou a orientação sexual, a cor, o gênero e as pessoas diferentes de si. Fez discurso de ódio e faz questão de ter o ~direito~ de ter uma arma. E, ao mesmo tempo que posou de tradicional e a favor da família tradicional brasileira, também traiu, roubou, enganou. Mas que, por ser Natal, veste a roupa de bom moço, abraça a família, finge aceitar a tudo e a todos e canta, como se ele próprio estivesse imune, pelo menos naquele dia: então é Natal, e o que você fez?

Juro, penso mesmo em como deve ser ter de viver assim, fingindo ser alguém que efetivamente não se é.

Mas se tem algo que eu aprecio no feriado que comemora o nascimento de Cristo e todo o blablabla que o acompanha, isso é a gordice da data. Eu sou um obeso mórbido mental e, convenhamos, tem época do ano melhor para se empanturrar do que na ceia de Natal? Como eu disse, na minha casa nunca tinha ceia, era sempre um dia como outro qualquer. Assim, lembro bem de, quando mais velho, independente e já morando sozinho, fui passar uma véspera de Natal na casa de uma grande amiga e, nossa, que delícia aquele monte de comida. Meu instinto de Marcelina ficou feliz e eu chego a salivar só de lembrar. Pra alguma coisa boa tem de servir a hipocrisia religiosa, né?

E nesse ano, sendo Natal, o que farei? Bem, nessa noite de 24 para 25 de dezembro vou para a casa de alguns grandes amigos e, sinceramente, só tô pensando em uma coisa: vai ter ceia, e comilança e muita bebida. Mas, se tivermos que cantar, posso dizer sem medo algum que não, eu não fui partícipe da merda que nos espera. Isso não adianta muita coisa, mas, pelo menos, alivia a consciência. Se bem que, sendo Natal e tendo comida, who cares?

Leia Também:
Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: