sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

O Desafio de Viver o Tempo




Acho que todos nós temos a mesma impressão: de uns tempos pra cá, nossos dias parecem não ter mais 24 horas, pois entre o raiar do sol e o anoitecer existe somente um simples piscar de olhos.  Esta sensação pode estar relacionada aos nossos afazeres infindáveis, afinal, vivemos em uma rotina atribulada, sem muito tempo para contemplarmos as coisas mais simples.

Já pararam para pensar que quando éramos crianças, os nossos dias eram muito mais longos?  Acordávamos, íamos para o colégio e tínhamos as tardes livres para estudar, brincar, assistir TV e ainda dava tempo de tirar uma soneca antes da janta.  Torcíamos muito para que o mês de dezembro chegasse para comemorarmos o Natal.  No meu caso, dezembro ainda era o mês do aniversário, então tinha torcida dupla.  Eu ficava super ansioso para que o ano terminasse.  E quando a data chegava, o intervalo até o próximo aniversário e Natal era tão longínquo quanto uma viagem para Marte.

Outro dia estava lendo um artigo que explicava um pouco sobre esse mesmo questionamento.  Na verdade, os dias estão ficando mais longos por causa de uma ação gravitacional da Lua e do Sol, que influencia o movimento das marés e desacelera a rotação terrestre.  Claro que é algo imperceptível – coisa de milissegundos.  Portanto, nada mudou desde que éramos crianças.  Os dias e as noites continuam sendo os mesmos. 

E, aí, durante o artigo, fiquei encafifado com uma afirmação de que os dias parecem passar mais rápidos pois estamos nos tornando velhos.  Quem disse isso foi um filósofo francês chamado Paul Janet em 1897, fazendo um cálculo lógico: “cada ano de nossas vidas representa um pedaço menor do todo.  Se um ano representa 20% da nossa existência aos 5 anos, essa proporção cai para 2% quando chegamos aos 50”.  E que no avançar das décadas, o ciclo de 1 ano, ia se tornando cada vez mais curto.

Apesar de ser meio polêmico – no próprio artigo também há menções que é possível passarmos por momentos mais “demorados” na velhice – concordei com os desdobramentos desta pesquisa:  essa “rapidez” está intrinsecamente relacionada com a nossa memória.  E que a rotina é uma das grandes vilãs neste sentimento de que o tempo está escasso.

No artigo havia vários desafios para fazer-nos lembrar de shows emocionantes, a última vez que fizemos uma viagem incrível ou até mesmo quando foi a última vez que você resolveu acampar no meio do mato.  Na verdade, tudo que foge da rotina ou que gerou prazer, mesmo que tenha acontecido há anos atrás, ainda pode ser relembrado com riqueza de detalhes.  E esses detalhes vão se diferenciar quando embaralharmos na nossa memória comum, um dia modorrento ou estressante do trabalho.   Os dias “normais” são condensados em uma única memória.  Por isso todos os dias parecem iguais, sem muita relevância emocional.

E, conforme o artigo avançava, mais eu concordava com o que os pesquisadores revelavam.  “Na juventude e adolescência, estamos cheios de primeiras vezes – o primeiro dia na escola, a primeira vez que dormimos fora de casa, a primeira viagem sem os pais, o primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro emprego, o primeiro bebê... e quando ficamos velhos, os acontecimentos se tornam repetitivos, pois se torna parte da rotina e produz menos memórias”.

Reparem que quando viajamos para um local super bacana conseguimos fazer centenas de coisas ao mesmo tempo?  E aí quando voltamos para nossa rotina e relembramos de nossas viagens nos surpreendemos que o tempo parecia muito mais longo?

Pois é.  Esse é o segredo.  Para alongar o nosso tempo, precisamos criar o maior número possível de memórias, para que elas se destaquem das demais.  “Quanto mais os dias se sobressaem, mais longos eles vão parecer em retrospectiva”.

Por isso, viva cada minuto intensamente para que ele pareça infinito.


Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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