terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Preferidos do Barba Feita: Melhores Livros (Lidos em) 2018





Dando continuidade aos nossos melhores de 2018, foi-me incumbida a responsabilidade de capitanear a lista dos livros que se destacaram neste ano, mesmo que não tenham sido necessariamente lançados nesses 365 dias.

Num ano em que o Ministério da Cultura coloca-se à prova, junto com outras esferas do Poder Público, imprescindíveis ao alimento da população que amarga com políticas cada vez mais excludentes de direitos e informações, onde livrarias tradicionais fecham suas portas por falta de incentivos culturais e financeiros para se manterem, num ano onde um livro paradidático foi utilizado como moeda de troca de votos sob falso alarde de incitação ao erotismo, falar de livros é um grande desafio.

Não sei para vocês, leitores, neste mundo tão moderno, onde a leitura que desejas pode ser baixada quase que imediatamente (e, por vezes, de forma gratuita) no seu celular, a falta que as páginas de papel fazem. Mas para mim, a abertura da proteção plástica que embala os exemplares, o cheiro das folhas novas impressas nas editoras tem um quê de infância. Um quê de esperança. Esperança que eles persistirão e continuarão existindo. Talvez um dia, como grandes tesouros, vendidos a peso de ouro, quando num futuro longínquo, dada a velocidade da nossa tecnologia, deixarão de existir...

E como somos um grupo de transgressores, resolvemos sim, falar dos melhores livros  que lemos em 2018! Eis a nossa lista:

Liberdade Para os Lactobacilos Vivos, de Marcos Araújo

Apesar de acharem “claro que ele escolheria esse livro!”, eu ainda não tinha terminado de ler as 185 páginas de Liberdade Para os Lactobacilos Vivos, quando me chegou a encomenda. Então, antes de escolher por um outro título, me desafiei nesta última semana em tirar a prova dos nove do que eu já imaginava. 

Descrevo esse livro a alguns amigos como a tradução literária daquele meme da "evolução da espécie humana" onde inicia-se pelo macaco e termina nos dias atuais com um homem e um smartphone nas mãos. Liberdade fala dessa velocidade de inserção de informações no nosso dia-a-dia, em que sem perceber sucumbimos a um mundo extremamente tecnológico que por vezes não nos faz perceber a violação cada vez mais frenética de nossa vida social. Com uma passagem muito inteligente sobre situações políticas, a sua concepção, que se iniciou antes do nosso fatídico cenário político atual brasileiro, pode ser considerado um prelúdio de muitas coisas que ainda estão por vir. 

Como diz um amigo em comum nosso, esse foi um ponto certeiro do mago das seitas ocultas e colunista das sextas-feiras daqui do Barba, Marcos Araújo. Super indico a leitura, se você estiver a fim de refletir a realidade do seu dia-a-dia.

O Vilarejo, de Raphael Montes

O livro é de 2015, eu já o tinha em casa há um tempinho, mas só tirei para ler durante a recuperação da minha cirurgia de sisos. E devorei O Vilarejo (única coisa a se devorar com uma cirurgia na boca é livro) em uma tarde. Já conhecia Raphael Montes pelo seu último trabalho, Jantar Secreto, livro que me impactou bastante. O maior mérito de O Vilarejo (e isso quem fala é um autor também) é costurar todas as suas histórias, sete contos ao todo, como se fosse apenas uma, embora possam ser lidas de forma independente ou fora de ordem.

No livro, Raphael Montes segue aquela lógica de João Ubaldo Ribeiro em A Casa dos Budas Ditosos e diz que só recebeu originais e os publicou, não sendo o real autor da história. Segundo a obra, em 1589, o padre e demonologista Peter Binsfeld fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar o mal nas pessoas. Esse demônios, cada um com o seu nome, dão origem a sete histórias situadas em um vilarejo isolado, apresentando a lenta degradação dos moradores do lugar, e pouco a pouco o próprio vilarejo vai sendo dizimado, marcado pela neve e pela fome. Um thriller que flerta com o sobrenatural pra falar dos pecados humanos.

Stalker, de Tarryn Fisher

2018 foi um ano em que não consegui ter muita diversidade entre as minhas leituras. Apesar de ser um assinante da TAG Inéditos, só consegui ler dois livros dos sete já enviados a mim pelo programa. Mas, posso afirmar que ambos valeram e muito a pena.

Stalker, escrito por Tarryn Fisher, foi um desses livros e apresenta uma trama clássica, em que vamos conhecendo o enredo através dos olhos da “vilã” problemática da história... Mas isso, aos poucos, vai mudando de figura e fica claro que nem tudo que a gente acha é a realidade por trás daqueles fatos, já que uma história acaba sempre tendo mais de um lado e, dependendo de quem a conta, ele pode acabar sendo o protagonista daquele enredo.

Se você gosta de um bom suspense policial, Stalker é perfeito para você e fica como a minha dica de leitura, sendo o melhor livro que li no ano que se encerra.

Cloro, de Alexandre Vidal Porto

Mesmo com toda a crise que rondou as livrarias esse ano e, cada vez mais notando que as pessoas estão lendo cada vez menos, precisamos ir remando contra a maré e incentivar cada vez mais o hábito da leitura. Esse ano, tivemos muitos lançamentos imperdíveis e que devem estar presentes nas suas estantes ou cabeceiras. Fiz aqui uma listinha como o tocante Me Chame Pelo Seu Nome, de André Aciman (que também virou um filme maravilhoso), a estreia do carioca Geovani Martins com o ótimo O Sol na Cabeça e seu realismo nos contos envolvendo a linguagem dos moradores das favelas do Rio de Janeiro, e o envolvente Cinza, Carvão, Fumaça e Quatro Pedras de Gelo, do jornalista Luis Erlanger (que devorei em um único dia).

Entretanto, o livro que me arrebatou (e me emocionou) foi um que comprei sem querer, atraído pela capa – um fragmento de uma obra da artista plástica Adriana Varejão, que amo. O livro, chamado Cloro, terceiro romance de Alexandre Vidal Porto, traz a história de um advogado de 51 anos, casado e pai de dois filhos, que morre – e cuja trama é narrada pelo próprio protagonista morto - e revela o drama em não ter assumido seus desejos homossexuais para a sociedade e ter vivido um grande amor. É um livro muito sincero, que fala das verdades secretas e memórias homoeróticas infantis, desejos reprimidos, experiências e as incertezas de muitos gays em “sair do armário”. Um livro lindo e essencial.

Uni-Duni-Tê, de M. J. Arlidge

Sabem aqueles livros que você começa a leitura e simplesmente não consegue largar até chegar ao final, que quando não está com ele em mãos está pensando na história e em todos os seus desdobramentos? Pois é, se gostam de títulos assim, vocês precisam conhecer o meu indicado a melhor livro que li em 2018.

Lançado em 2016 no Brasil, eu só conferi Uni-Duni-Tê, do autor inglês M. J. Arlidge, nesse ano e foi amor desde a primeira página pela história de um serial killer que sequestra duplas de pessoas, as coloca em privação (de água, comida), mas que as deixa com uma escolha em mãos: uma arma, uma única bala e a decisão de quem vive e quem morre, cabendo ao sobrevivente escapar de um destino trágico baseado apenas em seus próprios valores. Além, é claro, de lidar com as próprias decisões depois. 

Livro incrível e, sem sombra de dúvidas, o meu preferido lido em 2018.

Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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