quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Quando a Publicidade Erra





Não sou um exímio entendedor de comunicação e nunca poderia ser chamado para aprovar campanhas publicitárias antes de irem ao ar. Mas fico impressionado com a quantidade de besteiras que passam pelo crivo desses experts antes de algumas coisas serem veiculadas. Nesse fim de ano, é comum ter campanhas com apelo sentimental e tentativa de nos fazerem chorar. Algumas conseguem, mas não de emoção...

Um desses exemplos foi a campanha da Perdigão, na qual a venda de um Chester garante outro na ceia de quem precisa. A agência de publicidade escolheu atores negros para fazer a família necessitada e brancos (até dá pra ver uma atriz mestiça) pra serem os salvadores favorecidos.

Tudo bem que isso já nem é mais um preconceito - é um conceito social mesmo. Infelizmente, essa é a realidade de muitas famílias desfavorecidas (majoritariamente negros e descendentes) e das com mais condições (brancos). Mas explorar isso de forma comercial é colaborar e perpetuar para o racismo.

Uma outra situação bem diferente foi a de O Boticário. A empresa de cosméticos já havia acertado em cheio antes em outras campanhas, falando de inclusão. A de agora me pegou completamente desprevenido: chorei cântaros. Se você ainda não viu, prepare seus lencinhos, pois o comercial consegue te colocar como se fosse os supostos pais daquela criança que se prepara pra cantar em sinais numa homenagem feita pelas famílias ao som de Stand by me. Simplesmente lindo e no ponto certo, sem ser apelativo.

O que me assista na comparação dos dois casos é imaginar que ambas são grandes empresas, lidam com públicos de milhões de pessoas em todo o Brasil e estão há décadas no mercado publicitário. O que falta em um que sobra no outro, e vice-versa. Ou melhor: por que falta em um e no outro sobra? Será que não se percebe que vivemos outros tempos e os caminhos, mesmo os publicitários, precisam se atualizar?

Afinal, ainda que seja viver de vender ilusão, que seja uma ilusão socialmente responsável.

Zico Camara  
Zico Camara é filósofo autodidata, conversador de botequim e autor nas horas vagas. Pode não parecer, mas é um otimista e apaixonado pelo seu país.
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