quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

10 Anos de Desafio




Uma onda tomou conta das redes sociais nos últimos dias, em especial do Facebook e do Instagram: o tal 10 Years Challenge, ou Desafio dos 10 Anos. A brincadeira é simples: você coloca uma foto de dez anos atrás, compara com outra agora e pronto! As pessoas costumam escolher aquelas que mais demonstram mudanças, que geram curiosidades ou que alimentam o ego. É interessante ver a mudança (eu ia falar evolução, mas nem todo mundo melhorou...) passada uma década. Mas o desafio carrega com ele coisas ainda mais instigantes de serem observadas.

Vendo meus amigos e suas modificações, é curioso observar o processo de autoconhecimento pelos quais muitos passaram nesse período. Afinal, o que muda numa vida em dez anos? O que nós havíamos construído nos nossos primeiros dez anos de vida? E nos últimos dez anos? Alguns dos meus amigos sequer eram meus amigos dez anos atrás. Outros já eram conhecidos, mas não tínhamos a intimidade de hoje em dia. Ou, ainda: muitos eu sequer tinha a noção de que conhecia havia mais de dez anos...

Quantos dos meus amigos ainda não haviam saído do armário em relação à sua sexualidade? Alguns ainda viviam enrustidos em suas cidades do interior do Brasil. Outros, ainda se sentiam na necessidade de esconder (e ainda precisam, às vezes) de suas famílias ou empregos. Quantos não tinham dificuldade não apenas de serem aceitos, mas de se aceitarem? Quantos não viviam uma relação que lhes fazia mal e agora estão melhores e mais plenos?

Quantos sequer pensavam em se casar e hoje já têm filhos? E aqueles que acabaram indo morar em outras cidades ou mesmo no exterior para terem outros rumos em sua vida? Quanto não eram meus colegas de profissão e abandonaram, seguindo outras carreiras?

E eu? O que eu fiz de diferente em dez anos, além de ganhar mais barba, com direito a um fio branco? Eu já era comprometido, mas não nos moldes como sou hoje em dia. Ainda não havia saído da casa dos meus pais para juntar os trapinhos (estava prestes - em outubro de 2019 completam dez anos desse marco). De lá pra cá, já me mudei três vezes, ganhei dois cachorros (um já existia) e dois gatos.

Ainda não tinha feito a minha primeira viagem internacional (que foi em 2012 para Nova York e Washington). Aliás, eu mal havia viajado a lazer até então (foi em 2011 que fiz minha primeira viagem junto ao meu companheiro Cristiano em umas férias, rumo aos Lençóis Maranhenses).

Eu ainda estava longe de ter meus sobrinhos, que são alguns dos maiores amores que eu tenho nessa vida. Não havia lançado nenhum livro (foi na Bienal em agosto de 2009 que participei da primeira coletânea com outros 19 autores), muito menos escrito colunas como essas aqui. 

Ou seja, dez anos atrás eu tinha muito de mim, mas ainda não era nem metade do que sou hoje.

Dez anos realmente nos mudam muito. Talvez seja mais fácil olhar as fotos e reconhecer as diferenças e similaridades físicas do que tudo o que passamos e acumulamos nesse período. Aqueles que nos tornamos, os que desistimos de ser e os que ainda almejamos ser. São muitos mais 10 anos de desafio do que um desafio de 10 anos.

Leia Também:
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookInstagram


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: