quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A Nova Leva de Drags Divas e Talentosas




Quando fui a Nova York, já quase sete anos atrás, fui a dois bares/boates gay: o The Posh e a Industry. Uma coisa que me chamou a atenção em ambas foi a presença de drag queens muito diferentes das que estava acostumado a ver pelo Brasil àquela época: todas tinham um estilo diva. No The Posh ela tinha um quê de stand up comedy, mas com um humor mais ácido, e depois dançava no salto. Na Industry era um grupo de drags dançarinas, quase uma imitação da Broadway. 

Na hora, tracei um paralelo com o que conhecia de show de drags: geralmente um show de piadas feitas por drags bem engraçadas, mas “bagaceiras”, como Suzy Brasil, Karina Karão, Silvetty Montilla, Kayka Sabatella... Geralmente paravam a boate, faziam piadas com os presentes – geralmente voltadas para sexo, o fato de serem ativos ou passivos, o fato de serem afeminados ou não – e, quando realizavam alguma performance, geralmente era uma sátira. Um humor que tem o seu lugar e teve a sua importância na visibilidade das drag queens brasileiras. Mas que, hoje, parece um pouco ultrapassado. 

Acompanhar a ascensão de drags cantoras e divas, numa estrada pavimentada por Pabllo Vittar – com muitas pedradas tomadas, diga-se de passagem, tanto fora quanto dentro do meio LGBT – é, no mínimo, interessante. Uma vitória do movimento. Sei que drags são frequentemente citadas aqui no Barba Feita e programas como RuPaul’s e até o contestado desenho Super Drags ajudaram (e muito) a mostrar a arte prevista nesse mundo ainda tão preconceituoso. Mas ter musas que quebraram a parede do gueto imposta a elas e se tornaram sucessos incontestáveis é muito mais representativo. 

Lembro-me até hoje que, anos atrás, numa conversa com um amigo hétero sobre Pabllo Vittar, na qual eu disse que gostava das músicas dela e isso nada tinha a ver com o fato de eu ser gay, ele comentou: “A Pabllo é boa, mas você já conheceu a Glória Groove?”. Não conhecia. E demorei a conhecer. Agora que ouvi algumas coisas, simplesmente não consigo parar. Fiquei na expectativa do lançamento do seu último clipe, Coisa Boa, que fica na cabeça e totalmente empolgante. Depois fui apresentado a outros trabalhos mais autorais dela, inclusive um “dueto” com a sua parte mais masculina em Apaga a Luz

Pela Glória Groove e pela Pabllo Vittar cheguei até Aretuza Lovi. Eu já conhecia o hit Joga Bunda, mas admito que nunca tinha associado à sua real dona. Hoje em dia, o clipe de Joga Bunda é simplesmente o meu favorito do momento e não me canso de ver, naquela atmosfera Lady Gaga nos Anos 80. Com a direção de Felipe Sassi, que tem feito vários clipes de divas brasileiras (IZA, Karol Conká, Ludmilla, Wanessa Camargo e Lia Clarke – outra drag cantora que tem bons trabalhos e outros nem tanto, como Boquetáxi – e a própria Glória Groove em Coisa Boa), tem uma fotografia especial, ótimos cortes, cores fortes e Aretuza, Glória e Pabllo extremamente musas e arrasando juntas. 

Não me sinto nem um pouco na obrigação de ouvir essas drags, mas faço pela qualidade da música, dos clipes e por prazer mesmo. Encontraram um nicho de músicas dançantes e, muitas delas, com protestos e causas explícitas – ou as frases de Groove em Coisa Boa de “Se mexer comigo vai mexer com a tropa toda / tamo preparada, pode vir que é coisa boa” não seriam um pelo manifesto num momento de medo da comunidade LGBT? 

Tomara que 2019 seja um ano de muitos sucessos e ainda mais visibilidade. Que outros talentos rompam com essa cultura antiga de drags nos guetos e diminuídas e sejam cada vez mais reconhecidos, principalmente fora do meio LGBT. Porque talento não tem gênero ou orientação, não é mesmo?

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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