terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Essa Tal Felicidade...



“A vida tem sons que pra gente ouvir
Precisa aprender a começar de novo
É como tocar o mesmo violão
E nele compor uma nova canção.”

Ouvindo no Spotify dias atrás a canção Começo, Meio e Fim, do grupo Roupa Nova, me inspirei para escrever o texto de hoje. Tenho percebido que minhas últimas postagens andam bastante sentimentalóides.... Às vezes, acho que estou virando praticamente um colunista de autoajuda rs. Mas desde o último trimestre do ano passado, quando mudei de departamento dentro da empresa que trabalho depois de 20 anos atuando na mesma área, passei a ir e voltar para casa andando, voltei a fazer teatro e casei, venho refletindo sobre meu estado de felicidade.

Sem parecer demagogo, às vezes me pego sorrindo. Estou realmente satisfeito com a vida que construí até aqui. E qual a fórmula para isso? Não sei. Só sei que me sinto plenamente feliz. É claro que não tenho uma vida de comercial de margarina. Continuo tendo problemas para liquidar por completo minha fatura do cartão de crédito e domar a minha compulsão por roupas e sapatos. Algumas contas ando pagando com um mês de atraso e as contendas familiares estão até abrandadas, mas quando surge uma... Nossa! Mas isso não tem me deixado triste ou infeliz. 

Acho que a felicidade é, na verdade, um estado de espírito. Sei lá, acho que alguém já disso isso. Tentar sempre ver o lado bom das coisas, por muito tempo foi um desafio para mim. Pelas agruras da minha vida ou pelas dificuldades para realizar meus sonhos. E foram essas dificuldades que me mutaram. Eu tinha que ser mais grato pelo mínimo que eu conquistava. Murmurar menos era quase impossível (e olha que eu reclamava de tudo!).

Fui percebendo ao longo do tempo que sorrir mais e tentar sempre ver o lado positivo das coisas me deixava mais leve e até atenuava os problemas que antes, aos meus olhos, eram tão pesados... Na verdade, esse pretenso equilíbrio me trazia tranquilidade e sensatez na busca pela resolução dos meus problemas. Percebi que a felicidade, no entanto, estava mais perto de mim do que eu imaginava. Na verdade, ela não é um tipo de prazer instantâneo ou fugaz. Ainda que este conceito pareça clichê demais (e é), a verdadeira felicidade está realmente nas pequenas coisas. Às vezes, naquelas que não damos tanta importância: um sorriso, um abraço, um “eu te amo”, um pagamento do valor mínimo do cartão de crédito, uma gargalhada por uma besteira ou piada sem sentido. A gente tende a potencializar essas pequenas ações e exigir que, para sermos felizes, elas precisam ser maiores, precisam ser mais. E por isso deixamos de valorizar o mínimo. 

Sem nem perceber, vamos aprendendo que a felicidade está nas posses. Isso está cada vez mais presente nas propagandas, nas novelas, na política. Onde quem tem cada vez mais poder, e é mais bem-sucedido, é consequentemente mais feliz e realizado. 

Mas na realidade, a felicidade está muito longe disso. Mesmo que possamos aproveitar coisas materiais e sentir a ilusão e a sensação de euforia ao usar algo que gostamos, esse é justamente o tipo de felicidade que não dura muito tempo. O prazer obtido através de objetos materiais é muito rápido, pois você nunca estará completamente satisfeito e cada vez precisará de mais. Em contrapartida, a satisfação obtida emocionalmente não é passageira. Se uma pessoa rica não tem boas amizades ou um amor verdadeiro para dividir a vida, será muito menos feliz (se é que conseguirá ser minimamente) do que alguém mais simples que tenha carinho, apoio e um ambiente feliz onde viver. É só observarmos algumas reportagens em que pessoas com pouca instrução, que vivem em lugares sem recursos e esquecidos pelos políticos cada vez mais ávidos de riqueza e poder, sorriem. Mostram seus dentes muitas das vezes prejudicados pelas cáries, mas acompanhados de um sentimento de luz, que todo o poder econômico do mundo talvez não traga. 

É claro que grana é importante! Mas estarmos ao lado de pessoas que amamos e que nos amam é que nos faz ser fortes. Somos seres naturalmente sociais, e ainda que uns precisem mais do que outros, nossa felicidade é proporcional ao grau de satisfação emocional que temos. É paradoxal conhecer pessoas que, quando tristes, se isolam do mundo exterior, pensando apenas que sua infelicidade é fruto de sua falta de dinheiro. É claro que, se falta dinheiro para as necessidades básicas, a infelicidade aparece, mas isolar-se do mundo a sua volta piora ainda mais a situação. Porque não considerar uma “tristeza efêmera” para trazer menos peso?

A única arma que pode nos ajudar a sair da tristeza é a socialização, seja com amigos, familiares, conhecidos, companheiros…. Seja quem for, se esta interação proporcionar compreensão e apoio, acredite, as coisas melhoram! Quantas pessoas com problemas buscam refúgio em boas amizades, e assim são capazes de continuar suas vidas normalmente? Muitas! Ao contrário daquelas que, sozinhas, pioram ainda mais seus problemas.

Precisamos estar em contato com os outros para sermos felizes. Então eu acho que posso concluir que essa minha felicidade deve-se ao fato de eu estar cercado de pessoas bem-humoradas e aproveitando a vida dividindo-a com estas pessoas sempre que posso. Já não me importa a falta de um carro de luxo, ou não ter uma cobertura em frente à praia, porque o material não alimenta mais a minha alma. Os aplicativos me dão o conforto de andar de carro com um chofer particular! E posso caminhar sem camisa até o metrô, já pegando um bronze a caminho da praia! Viu? É uma questão de visão! 

Muitas pessoas procuram a felicidade em coisas materiais, focam demais no trabalho, em guardar dinheiro e no poder cada vez maior de comando. Mas, depois de conquistar o que querem, se dão conta de que continuam vazias e sozinhas. O excesso de trabalho as afasta da convivência com a família e amigos. A estafa adoece. E a grana que poderia ser gasta naquela viagem bacana ou no chopp com os amigos no fim de semana, servirá, apenas, para custear o tratamento de saúde. 

Nunca é tarde para deixarmos ir embora tudo o que torna a nossa vida pesada. Abramos espaço para o novo, para as oportunidades e demo-nos a chance de sermos felizes. Todos os dias.

Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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