terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Lavando a Alma






Tenho o costume de, sempre no primeiro dia do ano, ir à praia com um grupo de amigos para “lavar a alma”. Lembro que, quando fiz a primeira comunhão, aos 16 anos, nas aulas de catecismo, numa das aulas em que a professora falava sobre o sacramento do batismo abordou esse tema de forma bastante interessante. Ela dizia que quando estivéssemos “enfermos da alma”, poderíamos recorrer em oração embaixo do chuveiro e clamar à Deus que nos “rebatizasse”, pedindo que aquela água nos limpasse de todos os maus sentimentos e energias. Contradição religiosa, ou não, essa expressão nunca saiu de minha cabeça desde então.

E, nestes tradicionais programas praianos de fim de ano, eu sempre me “rebatizo”. O que eu faço? Como eu faço? Não há um ritual específico. Não há palavras, orações ou pedidos específicos. Só fecho os olhos e deixo meu pensamento divagar por todo o ano que percorri. Por todos os problemas que enfrentei. Agradeço pelos que consegui vencer. E peço forças para que encare os que não consegui ultrapassar e para os que ainda estão por vir. Canto baixinho uma música qualquer. Deixo passear em meus pensamentos um clipe com o rosto de todas as pessoas que amo, estejam elas perto de mim ou há muito tempo sem ver. Mergulho. Nado. E me rebatizo. E me renovo para um novo período. 

Para mim, lavar a alma significa ter a consciência e a coragem de se desapegar de sentimentos que, às vezes, até são fortes e intensos, mas estão há tempos estagnados, causando mais angústias do que alegrias, trazendo mais problemas do que soluções, criando desconforto, frustração. Lavar a alma é deixar ir embora aquilo que te angustia, te prejudica de certa forma. Lavar a alma não só de ressentimentos, mas de lembranças que não deveriam mais fazer parte da sua vida. Desconectar-se, deletar coisas que não vão te acrescentar em nada.

Às vezes, sinto que estamos passando por um mal do século, onde hoje em dia as pessoas têm medo - ou incapacidade - de amar, de entregar-se de corpo e alma a outra (ou outras) pessoa (s). O ruim é que o ser humano, de forma geral, está cada vez mais desaprendendo a amar, ou melhor, desamando. Em função de várias razões: ser julgado pela sociedade pelas suas escolhas, pelos seus próprios preconceitos, medo de ultrapassar limites, de não ser aceito, como se a conjugação (e colocação em prática) do verbo amar fosse algo inóspito. 

Nos últimos meses que antecederam o fim do ano, e em particular as eleições presidenciais, muitos comportamentos e anseios reais se descortinaram para mim. “Amigos”, familiares e pessoas próximas mostraram muitos sentimentos que até então estavam mascarados. A legitimação através da conduta do seu pretenso (e agora efetivo) representante foi apenas a justificativa para vermos o real pensamento de algumas pessoas sobre o que de fato eu sou para elas. Difícil não olhar mais para aquela pessoa, que antes você admirava, sem pensar em tudo que foi dito ou escrito e não se sentir atingido pelas duras palavras de exclusão, quando você representa tudo aquilo que era rechaçado. “Ah, mas não estou falando de você, que é meu amigo ou meu familiar...”. Mas está se referindo a alguém que é como eu. Logo, é de mim sim, se eu tenho um comportamento análogo. 

E isso, esse tal “mal do século” não é somente aqui no Brasil. O mundo está doente. O verbo amar me parece que agora só faz parte das aulas de Língua Portuguesa para aprender-se a conjugá-lo tecnicamente de forma correta. Essa expressão não é mais trabalhada nas aulas de sinônimos. Mas existem equívocos reconhecidos. E isso me dá esperança de um mundo melhor. Agora, o celeiro fica mais claro. O joio literalmente se separa do trigo e a nuvem de fumaça separa as personas. Não há mais algumas justificativas para manutenção de certos posicionamentos. A menos que... a menos que seja realmente a tal legitimação do lado obscuro antes guardado e que agora pode ser exposto. 

Se houver em nós um pouco de discernimento e temor a Deus (o verdadeiro, de Amor), iremos entender que nada escapa da visão d´Ele e, não tentemos justificar nossos atos pautados em Seu nome sentenciando justiça, como se fôssemos superiores ao outro. Quem realmente consegue lavar a alma é aquele que confia em bons sentimentos, que espera por uma justa justiça.

Hoje é o momento de deixarmos que seja feita em nós, na praia, no chuveiro, na cachoeira ou no simples beber de um copo d´água a verdadeira lavagem da alma. Tirar o obsoleto, o impuro, a vingança, banir das nossas vidas a inveja, as murmurações, a leviandade, o pré-julgamento e permitir que sejamo-nos purificados da nossa má consciência, permitir que sejamos inundados de bons sentimentos. 

E para fechar esse texto, que iniciei relembrando das aulas de catecismo, trago uma reflexão que também me marcou nas liturgias do Livro Sagrado e que, para mim, conjetura o verdadeiro sentimento divino: “A ira do homem não opera a justiça de Deus" (Tiago 1:20). Logo, não será com maledicências e pré-julgamentos de exclusão e intolerância que estaremos representando o verdadeiro Deus de amor. 

Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

2 comentários:

Unknown disse...

Bom dia a todos do barba feita!
Júlio César Brito,parabéns pelas lindas matérias sempre aqui compartilhadas.esse seu texto lave sua alma e seja feliz é muito linda e verdadeira precisamos lavar nossas almas e renova las a cada período em nossas vidas.lsvatei a minha alma pata ser feliz,é disso que estou precisando nesse novo ano,obrigado por belos textos e por fazer parte de nosso dia a dia amigo feliz 2019 pra vc e família AXÉ.

arlinda e carlos Castro disse...

Como sempre pontual e reflexivo em seus textos!
Grata por você compartilhar conosco a beleza que é lavar a alma!
Bjus no coração.