sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O Homem Que Caiu na Terra




Essa semana comemorou-se mais uma Bowie Week, uma semana com o intuito de relembrar David Bowie, que morreu em Nova Iorque no dia 10 de janeiro de 2016, dois dias após do seu 69º aniversário e do lançamento do 25º álbum, Blackstar

Ainda lembro exatamente de quando soube de sua morte. Antes de dormir, eu estava ouvindo o então recém lançado último disco e dei um pause para acessar no YouTube o clipe de Lazarus. Nele, Bowie aparece muito abatido tentando se libertar de uma cama de hospital. O cantor é mostrado com ataduras no rosto e botões pregados nos olhos, simulando costumes ancestrais.

Para quem desconhece a história, na mitologia grega era comum os parentes colocarem moedas nos olhos dos que haviam partido para que fossem entregues a Caronte, o barqueiro que atravessava as almas através do rio que separava o mundo dos vivos e dos mortos. Segundo a tradição, quem entregasse as moedas ao barqueiro assegurava uma “passagem” tranquila. 

No clipe, que também remete ao personagem bíblico ressuscitado por Jesus Cristo, Bowie levita e os versos da canção trazem um quê premonitório:

“Olhe aqui pra cima, estou no céu
tenho cicatrizes que não podem ser vistas (...) 
você sabe, eu estarei livre igual aquele pássaro azul. 
Isso não é a minha cara?”

Naquele dia, eu fui dormir meio angustiado. Em um momento cheguei a pensar em uma despedida. O que ele queria dizer com aquela cena final, andando de costas e se fechando dentro de um armário misterioso como um grande caixão?

Na manhã seguinte, ainda sonolento, fui surpreendido com a manchete “David Bowie morre aos 69 anos”. Levantei, num sobressalto, e fiquei estático, olhando para a tela do celular durante um longo tempo. Quando caiu a ficha, vieram as primeiras lágrimas que cismaram em correr durante todo o dia.   

Bowie era, para mim, como aquele velho amigo de infância, que mesmo de longe, sabemos de todos os passos. Na minha visão, ele era diferente dos demais rockstars que eu sempre fui fã, como Robert Smith ou Ian McCulloch. Bowie saiu do patamar de Deus do Olimpo dos palcos e dos refletores exatamente por ter esbarrado comigo num saguão de um aeroporto e ter batido um papo como um ser humano qualquer; um simples mortal que me entregou uma simples bituca de seu Marlboro por duas jujubas antes de piscar os olhos anisocóricos.

A história se tornou parte de meu primeiro livro, Troco a bituca por duas jujubas, que lancei em 2016, quase vinte anos depois daquele encontro que mudou minha vida.

Major Tom, Ziggy Stardust, Aladdin Sane, Haloween Jack, Pierrot, Thin White Duke, Thomas Jerome Newton e Jareth entre tantos outros alter-egos sempre acompanharam a minha vida e tenho todos eles em mim. Há três anos, “morreram” David Bowie. A Terra continua sendo azul e ainda continuamos sem poder fazer nada. Esse gênio faz muita falta.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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