terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Quando as Defesas São Indefensáveis é Melhor Calar-se





Reservadas as devidas analogias, eu comecei a escrever o texto desta coluna na semana passada e, como muitas das vezes escrevemos nossas colunas simultaneamente, ocorre de dois ou mais “barbas” escreverem sobre um mesmo tema com olhares diferentes. E, quando eu li a coluna da última sexta-feira, 18 de janeiro, Torce Contra (Que é Melhor) , do Marcos Araújo, percebi que tinha muito a ver com o que eu preparei para esta terça-feira.

Na verdade, o que tem me irritado muito ultimamente é a frase que já virou um slogan: “Ah gente, não vamos torcer contra!”. Ao contrário do que essa frase possa parecer, querendo incutir em quem está à espera das merdas que estão por vir neste novo governo (leia-se, todas as esferas), não se trata de uma torcida do mal. Se trata sim, de uma justificativa para não se arrepender de seu próprio voto. Pelo menos é o sentimento que vejo na grande maioria. Curiosamente, mantive algumas pessoas nas minhas redes sociais (só não vasculho as que me excluíram) e tenho observado alguns depoimentos do tipo: “As pessoas preferem viver à sombra do PT!”, ou “Ao invés de torcerem para dar certo, preferem que deem errado para dar razão ao Lula e sua corja!”, ou mesmo a mais absurda de todas “O novo governo ainda nem fez 30 dias e as pessoas já estão condenando!”

Bem, quaisquer destas situações não se encaixariam nem um pouco na minha percepção e no meu posicionamento como cidadão. Nunca fui defensor de um partido ,e bem no começo de todo o escândalo envolvendo o Partido dos Trabalhadores, fui criticado por um conhecido por ser “apartidário”. Meu posicionamento sempre foi pela melhor política para o povo brasileiro como um todo, pois acho que uma ideologia política pré-formada por aqui não funciona, justamente pela nossa pluralidade de raças e personalidades. E desde o começo, sempre achei que os candidatos e agora líderes eleitos, nunca fariam uma política para o povo suis generis que somos. As condutas que desaprovo totalmente dos governos anteriores não validam em absoluto nenhuma simpatia pelo novo. Sou um cidadão que paga impostos altíssimos desde sempre e nunca me senti totalmente satisfeito com o produto que recebi disso: segurança, saúde e educação sempre foram deficientes. Mas não tem como negar que alguns deram mais e outros tiraram muito mais. E outros... Bem, outros vão tirar mais ainda. 

Aprendi na vida que quem tem teto de vidro não pode jogar pedra no telhado dos outros. Como pautar uma campanha política dizendo que vai varrer a corrupção, se toda a sua família é envolvida em esquemas, no mínimo, suspeitos? Sim, encaramos apenas como suspeitos, pois estão sendo utilizados, a olhos vistos, subterfúgios para impedir as investigações que esclareçam o primeiro de muitos outros esquemas que virão à tona, certamente. Nas tais redes sociais, as justificativas para o seu próprio voto, como eleitor equivocado, chovem. Alguns, pior, nem se dão a esse trabalho e corroboram com a conduta, independente de comprovados desvios. Estes, apenas assinam sua verdadeira face: somos homofóbicos, misóginos, racistas, hipócritas e excludentes. E agora temos um líder que legitima isso e que se dane o resto. Na época das eleições, alguns justificavam seu voto com outra frase de efeito “precisamos apenas de uma política de colisão e se ele ganhar, é claro que muitas das coisas que eles propõem não serão aceitas!” Oi? Mas se validarmos essa eleição, será (no caso, seria) o primeiro passo. E eis que o cenário se tornou pior ainda: grande parte da base aliada foi eleita, assim como governadores e senadores que manifestaram seu apoio às pretensas plataformas políticas pautadas na legenda de “Deus acima de tudo”, como trunfo claro para dispararem na disputa eleitoral, comandada por cegos eleitores que se classificaram como “justiceiros”.

Pensei, por muito tempo em calar-me. Em assistir a tudo isso quieto até porque em tempos de comparação à ditadura qualquer coisa poderá e talvez será usada contra nós. Mas preciso, enquanto cidadão, enquanto ainda posso, lembrá-los de um simples episódio: quem não se recorda que na época das eleições onde um burburinho que envolvia o financiamento da campanha do atual presidente, poderia colocá-lo fora das disputas e nessa linha de comportamento protofascista deparamo-nos com a fala do filho do então candidato da extrema direita, o, na época, deputado federal, ameaçando os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) caso eles decidissem fazer algum tipo de questionamento àquela candidatura presidencial, chegando ao ponto de cogitar o fechamento da instituição? Quem não se recorda de que o atual Ministro da Justiça (olhaaaaa) - na época um despretensioso juiz de direito federal - utilizou vários meios de comunicação para disseminar informações que até hoje não conseguiram ser contestadas, sobre as investigações e condenação do ex-presidente? Que este mesmo ministro, assim como o atual senador do estado do Rio de Janeiro pautou suas decisões para tal condenação, excluindo todas as possibilidades de foro privilegiado para julgamento do ex-presidente e agora se cala diante do pedido do senador (filho do atual presidente) em que pleiteia tal benefício e é atendido pelo mesmo STF ameaçado no passado? Ufa! Que cama de gato não? Não. É tudo muito simples. Só não vê quem não quer. 

Às vésperas das últimas eleições, em 11 de setembro de 2018, escrevi um texto aqui mesmo no Barba intitulado Vivendo à Sombra de um Holocausto Tupiniquim e que me remete ao comportamento de muitos, que mesmo diante de tudo que está acontecendo a olhos vistos, permanecem em seu posicionamento de defesa: algumas pessoas cegas em sua admiração por Hitler, se suicidaram e mataram suas próprias famílias para não terem que viver sob um outro governo que não fosse o dele. Mas será que o que queremos é o melhor para aquela mulher negra, desdentada, que vive quase escravizada no interior para ter dinheiro para comprar farinha e alimentar a si e seus filhos, igualando-a a nós como seres humanos, ou, corroborar com tantas coisas ruins apenas para termos razão e ao final justificar: “Mas eu não imaginei que seria assim. Na verdade, sempre quis um país melhor”?

Neste caso, farei como uma “ex-amiga” que me excluiu da vida dela e das redes sociais apenas por eu manifestar meu posicionamento como cidadão contrário às pretensas políticas de nazismo latino-americano, e ela, por não aceitar (e não ter argumentos de defesa), do seu capitão-mito e dizer: “Me poupe, se poupe, nos poupe!”. Ficará menos feio...

Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Fabiano Alvares disse...

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