terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia de Viver Num Mundo Melhor!




Assassinato de vereadora sem esclarecimentos após um ano. Prefeito Bispo que não segue as diretrizes do Livro Sagrado com seu próximo e muito menos com seus eleitores. Eleições oportunistas em todas as esferas. Fakenews. Exílio de político por ameaças à sua vida com deboche de presidente em redes sociais (e apoiadores e eleitores também). Corrupção divulgada em larga escala, com interpretação, na íntegra, da alta corte do Poder Judiciário para a estátua da Justiça, permanecendo de olhos vendados. Violência. Falta de empatia. Mais um lamaçal que atinge a sociedade, literalmente...

Utilizando-me da licença poética e atribuindo uma nova roupagem para o enredo da GRES Beija Flor de Nilópolis desenvolvido por Joãozinho Trinta no emblemático carnaval de 1989, tento destrinchar nossa realidade nos últimos meses. Mas difícil desfazer esse nó da garganta que insiste em me sufocar. São tantas notícias ruins nos últimos tempos, que elas só conseguem se superar pelos abutres que se beneficiam delas. 

Acho que já escrevi a perder de vista (ou comentei com amigos?) que o mundo está doente. As pessoas estão doentes. E isso dá uma tristeza danada! Dia desses escrevi sobre o estado de felicidade que eu me encontrava (Essa Tal Felicidade, 15/01/19). Mas como ser alheio a tudo que está acontecendo no mundo e manter-se inteiramente feliz? O estado de felicidade plena, para mim, depende do bem-estar do outro também, ainda que seja um desconhecido. Até que ponto a miséria de caráter humano tem sobreposto a integridade do outro apenas por mais alguns bens em seu patrimônio ou cifras em sua conta bancária? 

Alguns amigos me dizem querer ir embora do Brasil. Mas acho que deveríamos ir embora do planeta. Será que no dia do “Juízo Final”, os “portadores da Palavra do Senhor” responderão por tantas barbaridades em que estão envolvidos – e em condutas que estão bem longe das que pregam? Será que os “justiceiros” de plantão, um dia sentarão no banco dos réus pelas suas condutas nada aprováveis? Será que as pessoas que se aproveitam de tragédias sociais para se autopromoverem, um dia serão engolidas em sua própria lama de ganância? 

Hoje, diferentemente de meus textos anteriores, onde tenho costume de escrever muito, minha vontade é de silenciar-me, em sinal de luto. O tal nó ainda me sufoca demais, deixando passagem em minha garganta apenas para a ânsia de vômito que percorre meu corpo a cada fala ou escrita oportunista que presencio. As pessoas têm esquecido a dor do outro e se utilizam delas para benefício (se é que pode se chamar isso de benefício) próprio. 

Estamos vivendo num cemitério a céu aberto, de grandes dimensões, onde o outro é um papa-defunto à espreita para utilizar-se de nosso óbito carnal, social, financeiro ou psicológico (ou mesmo todos juntos) para seu próprio usufruto sem o menor remorso, desde que isso lhe traga algum tipo de benesse. 

A conclusão que chego a cada dia, é que os abutres, ratos e urubus em forma humana, tem destruído minha fantasia de viver num mundo melhor.

Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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