sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Torce Contra (Que é Melhor)





Lá pelos idos de 1993 eu ouvia demais uma fitinha cassete de uma banda de uns amigos da zona oeste.  A  banda se chamava Poindexter e eles foram os pioneiros do estilo rapcore, que misturava obviamente, o rap e o hardcore, mas também tinha elementos do punk, metal e o funk. Os meninos chegaram a assinar com a EMI-Odeon juntamente com outras bandas tão bacanas quanto e uma boa aceitação na saudosa MTV.

A banda terminou em 1999, mas os integrantes sempre se mantiveram bem ativos até hoje.  O supervocalista Vital, por exemplo, acabou de assumir os microfones da sensacional Matanza (que agora se chama Matanza Inc.), no lugar do icônico Jimmy London.

Essa introdução foi só pra ilustrar que a banda ia na contramão de tudo que tocava na época.  O Poindexter, assim como os seus conterrâneos Gangrena Gasosa, Sex Noise, Soutien Xiita e Zumbi do Mato faziam parte do fervilhante movimento underground carioca, com letras ácidas sobre a rejeitada rotina dos jovens da zona oeste.  Uma das canções dessa fitinha se chamava Torce contra (que é melhor) e a letra revela todo o menosprezo que a classe dominante tratava a minoria.  

“Eu tenho uma banda 
a gente toca na Baixada 
na dureza ninguém nunca ganha nada 
Vivemos em buracos 
somos ratos de esgoto 
tratados como lixo vindo do fundo do poço 
Ninguém liga pra nossa situação 
catamos as migalhas e não vivemos de ilusão 
se a gente fosse um bando de playboys
babariam nosso ovo e viraríamos heróis”

Anti-bandas como o Poindexter e seus conterrâneos expunham em suas letras a oposição.  E isso era legal pra caramba!  De uma riqueza ímpar!  Nesse ano, o Brasil vivia uma de suas piores crises econômicas após a renúncia de Fernando Collor, que sofria um processo de impeachment por denúncias de corrupção.  O vice, Itamar Franco, tentava desesperadamente controlar uma hiperinflação de 2.500%.  Nós tentávamos nos adequar à troca de moeda, que deixava de ser cruzeiro para se tornar cruzeiro real.  Mais para o finzinho do ano, o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, anunciava um programa de estabilização econômica.   A violência também explodia: foi nesse ano que aconteceram duas chacinas que chocaram o país e o mundo:  no Centro do Rio, oito crianças e adolescentes foram mortos por agentes militares ao redor da igreja da Candelária.  Um mês depois, vinte e um moradores foram mortos pela polícia em uma invasão em uma comunidade em Vigário Geral.  

A música alternativa, muitas vezes agressiva aos ouvidos menos atentos, era uma maneira de vomitar sobre tudo o que estava acontecendo em nossas vidas na época.  E esse assunto voltou à tona essa semana em uma roda de conversa com alguns amigos.  Hoje em dia, “torcer contra” se tornou um sinônimo de marginalidade, no sentido pejorativo da palavra.  São impostas regras calcadas no conceito “ame-o ou deixe-o” da velha ditadura.  Quem não é à favor de ações políticas da direita (o que é ser direita? - pergunto eu) é apontado como um inimigo, uma ameaça ao sistema.

Por isso, acho detestável aqueles discursos rasos impostos de cima para baixo sobre gênero e cor de roupa, leis e bíblia, histrionismo e deboche.  Eu não sou obrigado a torcer a favor. 

As pessoas se esquecem que “fazer oposição” faz parte do processo democrático.  Se eu não tenho empatia, eu não sou obrigado a gostar.  Se eu não concordo com as propostas governamentais, eu não sou obrigado a concordar com o que é apresentado.  Nada na nossa vida sobrevive sem diálogo.  E, portanto, dentro de um convívio social e democrático, precisa haver o contraponto.  É necessário o confronto e o debate constante para que possamos definir rumos.

Estamos no mesmo barco?  Claro que sim.  Quero que ele afunde?  Claro que não.  Mas isso não impede que eu reme em direção contrária e convença outras pessoas a fazerem o mesmo por achar que o caminho é menos tortuoso.  Mesmo que “a maioria” teime em seguir uma rota, eu posso ter força suficiente para tentar, ao menos, ir para outro lado.  

E tenho certeza de que o momento atual é de aparecimento de uma contracultura.  Assim como surgiram Caetanos, Elis(es) e Chicos nos anos 60 e 70, Capitais e Legiões nos anos 80, e Poindexters nos anos 90, o movimento promete ganhar força.  Então, que façamos dessa força para remar o barco.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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