segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

"Alô, Sapucaí, Chegou a Hora!"





Tenho algumas recordações bem vivas da minha infância. E, tendo nascido e sendo criado no interior do Rio, aquela vidinha pacata sempre foi a constante. Assim, ver televisão foi um hábito presente em toda a minha vida. Eu via muita novela com minha mãe. Mas lembro de alguns programas que meu pai assistia e que eu via junto. A maioria, programas de auditório no fim de semana, mas, uma vez no ano, pelo menos quando eu era bem novo e meu pai ainda não era de uma religião específica, um programa obrigatório: os desfiles das escolas de sambas na TV. 

Minhas memórias não são muito claras. Lembro do sofá da sala, da TV à cores de tubo (moderníssima na época) ligada e meu pai super empolgado com os desfiles e esperando a Beija-Flor. Porque se no Rio há uma certa implicância com a escola (no meu trabalho todo mundo vira o nariz quando se fala nela) no interior ela é a preferida da maioria. E eu sempre disse que era Beija-Flor, mesmo tendo nascido em uma cidade que o mais próximo do carnaval é um aglomerado de pessoas ouvindo música num carro na praça. Sad but true.

O tempo passou, eu cresci, me mudei da cidade e o carnaval como eu sempre conheci, aquele dos desfiles das escolas de samba no sambódromo, deixou de ser a minha única referência. Morando no Rio, no auge do governo Eduardo Paes e com aquela efervescência que tomou conta da cidade nos tempos pré Copa do Mundo e Olimpíadas, os blocos acabaram virando a parte preferida do meu carnaval. 

Vejam bem, eu ainda tinha curiosidade de assistir a um desfile na Sapucaí ou de participar de um desfile. Mas isso exigia demais de mim na época. O que eu sabia é que tinha de participar de ensaios, me comprometer e mil coisas mais e, sinceramente, eu não estava interessado nessa parte. E por isso fui deixando isso para lá, colocando o desejo na caixinha com rótulo de "quem sabe um dia"...

E o tempo passou, eu conheci L2 e o menino é viciado em carnaval, mas no carnaval de raiz. De frequentar roda de samba, ir pra Sapucaí, saber cantar todos os sambas enredo e tudo o mais. E quando ele me chamou para desfilar em uma escola do grupo de acesso eu pensei: uai, vamos, eu sempre quis! E assim tudo começou.  

Mas carnaval não é uma coisa simples. A gente ia desfilar em um carro de uma escola, deu ruim e, de última hora, faltando três semanas pro carnaval, fomos direcionados a uma ala de outra escola, a Unidos da Ponte. O que achei ótimo, porque quando pensava em desfilar eu sempre quis estar ali, no chão. Mas tinha um porém: a ala seria coreografada. E eu, que já ando e respiro, pensei: ih, fudeu! Mas, quem tá na chuva é pra se molhar, né? E assim estamos ensaiando, aprendendo os movimentos e, nessa sexta-feira estarei lá na Sapucaí, perdendo a virgindade no que diz respeito a esse que é um dos meus sonhos antigos e que eu já havia até esquecido e abortado.

E como paixão a gente descobre quando desperta, ao ir ao Sambódromo para assistir a um dos ensaios técnicos das escolas do Grupo Especial (e ver São Clemente, Mangueira e Portela ensaiando FOI DE ARREPIAR) eu pensei que adoraria participar de um desfile das grandes, das rainhas do carnaval carioca. Sabem a máxima do cuidado com o que deseja? Pois é, de última hora (última hora mesmo) surgiu a oportunidade e, além da Unidos da Ponte, estarei desfilando também no domingo, no grupo especial na Paraíso de Tuiuti, a vice-campeã do ano passado, atrás apenas da Beija-Flor. E só por isso o negócio já ficou mais sério, já que ao contrário da diversão do grupo de acesso, no grupo especial o negócio é realmente profissional.

No fim das contas, estou me divertindo. E enquanto você está lendo esse texto, eu já estou ansioso para os meus dois desfiles do próximo fim de semana. E pros meus bloquinhos. E pro camarote em que assistirei aos desfiles na Sapucaí.

Então, eu já disse que AMO carnaval? Pois é, eu amo. Que o reinado de Momo comece!

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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