quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Alzheimer e Uma Análise Sobre Morrer




Para morrer? Basta estar vivo! Bem óbvia essa informação, eu sei. Só que o meu receio sempre foi o meio do caminho. Entre viver a vida e morrer existe todo um percurso que pode dificultar o que parece óbvio. Ninguém imagina como vai morrer. Ao menos não é muito comum ficar fazendo planos para nossa morte. Idealizamos viagens que queremos fazer, coisas que queremos aprender ou empregos que queremos conquistar. Tudo bem que, às vezes, quando perco o sono até penso em como posso acabar morrendo. Sofrer um acidente de carro é o mais recorrente nessa minha lista. Mas como moro no Rio de Janeiro, nunca se sabe, a lista pode ser mais surpreendente.

Só que nada me assusta mais do que as surpresas que a própria vida coloca em nosso caminho. Quando uma doença chega sem aviso e vai te matando aos poucos. E de uma extensa lista de possibilidades, existe uma que morro de medo: Alzheimer.

Lembro até hoje quando ouvi falar sobre essa doença pela primeira vez. Era pequeno. Não mais uma criança, mas também não se pode dizer que já estava na adolescência. Era pequeno e lembro que minha mãe me explicou que a memória de uma senhora conhecida da gente estava confusa. E que, às vezes, ela voltava ao passado nas próprias lembranças e não sabia muito bem onde estava e nem com quem estava. E aquilo me assustou. Veja bem, assisto Doctor Who e amo a ideia de viagem no tempo, mas isso não inclui essa ideia da sua mente viajar e seu corpo ficar inerte e você se vendo perdido sem saber onde está. Acho assustador. Sempre achei.

Pouco tempo depois dessa explicação simplista sobre o Alzheimer, essa senhora faleceu. E acho que foi a primeira vez que encarei o ciclo da vida como justo. Por muito tempo ela era uma viajante no tempo, sem espaçonave, mas que parecia um zumbi boa parte do tempo. Não conseguia formar novas memórias e nem reconhecia mais quem estava ao seu redor. Algo no passado estava sendo sua âncora. E cada vez mais ela ficou presa por lá...

Anos depois, quando assisti ao piloto de Grey’s Anatomy e vi Meredith tendo que internar sua mãe, uma famosa cirurgiã, por conta dessa mesma doença, esse meu medo retornou. Elis Grey revivia constantemente seus anos iniciais na medicina e se mostrava completamente infeliz quando se via por algum tempo no presente, ao constatar sua realidade.

Quando me aventurei em um sebo da Tijuca, estava em busca de um autor brasileiro. E me deparei com Boa Noite a Todos, quarto livro do jornalista – e meu xará – Edney Silvestre. Uma novela e uma peça de teatro juntas, sobre o mesmo tema: o de uma mulher, Maggie, cuja memória começa a esfacelar. Fiquei intrigado com a ideia de ter reunidos a prosa e o roteiro da peça em um só lugar. Sem nem pensar duas vezes, comprei o livro.

Admito que fiquei encarando por semanas o livro em minha mesa de cabeceira. Antes li a peça Um Limite Entre Nós, que virou filme com Viola Davis e Denzel Washington, mas sempre pousava meus olhos em Boa Noite a Todos. Separei mais alguns livros que estão em minha lista, mas me enchi e coragem e iniciei minha jornada pelo maravilhoso mundo de Maggie. E fui arrebatado. Não só pelas lembranças daquela mulher misteriosa, mas pelo quebra cabeça que juntar as informações que ela fornecia ao que era verdade ou poderia ser a verdade, ou só parte do que ela desejava ser a verdade sobre sua vida.

Na novela temos essa mulher e um narrador que a contradiz e nos deixa em dúvida sobre aquilo que lemos. Será mesmo que ela teve um caso com o cunhado, dirigia um carro azul, ou seria verde? Mas ela sabia mesmo dirigir? Essas inconstâncias de informações, dramaturgicamente são fascinantes e Edney Silvestre soube fazer poesia como ninguém, utilizando uma doença tão triste e solitária como o Alzheimer.

A peça não é em nada diferente da novela, mas um grande monólogo em que uma brilhante atriz é capaz de encarar e fazer desse um grande papel de sua carreira. Imaginei Cristiane Torloni (que fez a leitura do texto na Fliporto de Recife em 2012) dando vida para essa enigmática mulher. Mas também pensei em Drica Moraes, Fernanda Torres, Virginia Cavendish e tantas outras atrizes fantásticas e brilhantes do nosso cenário nacional, que podem (ironicamente) dar vida ao momento em que Maggie decide dar o seu adeus.

E foi lendo essas duas versões da mesma história que percebi que existem formas mais intensas e brutais de morrer, mesmo que aconteça aos poucos no início, até que na velocidade da luz, acaba deixando um corpo vazio quase sem alma, só uma mente flutuante.

Morrer é um ponto final para o sofrimento, certo?  Ao menos é o que algumas pessoas dizem. Nesse caso específico, prefiro pensar que é meramente uma questão de justiça. Divina ou não. Mas uma maneira digna de encerrar um ciclo e sem se lamentar por isso.

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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