segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Educação Sexual Faz Mal Para Quem?





Recentemente, levantamentos afirmaram que o Brasil é um dos países com maior taxa de câncer de pênis do mundo. Por ano, cerca de 1.000 pessoas têm seus membros amputados nos casos mais graves da doença. A simples ação de lavar o pênis com cuidado já evitaria a doença. 

70% das crianças abusadas sexualmente foram atacadas dentro de casa pelo padrasto, pai, tio ou avô. Em muitas situações, as mães sabiam e consentiam com os abusos. 

O país é campeão mundial no número de pessoas LGBTI mortas. E não me refiro a mortes por acidentes ou assaltos, mas sim de crimes de ódio motivados apenas pelo desejo de eliminar a pessoa por não tolerar sua orientação sexual e/ou identidade de gênero. Muitas vezes, esses delitos são praticados com requintes de crueldade. 

A gravidez na adolescência é a maior da América Latina, afastando muitos jovens das escolas e dificultando a carreira profissional. Muitas mães acabam cuidando sozinhas dos filhos, pois os pais, também jovens, não assumem a paternidade. 

A AIDS ainda mata cerca de 12 mil pessoas por ano, mesmo com os insumos de prevenção, teste/exame e tratamento disponíveis pelo Sistema Único de Saúde. Pessoas, em sua maioria jovens, descobrem a sorologia tarde demais, quando já apresentam doenças graves como tuberculose, pneumonia e câncer. 

Os transtornos mentais como ansiedade, depressão, transtorno bipolar e alimentar, e também o suicídio de adolescentes e jovens gays, lésbicas e transexuais é muito maior que em outros grupos. 

Três em cada cinco mulheres relatam já terem vivido relacionamentos abusivos envolvendo violência psíquica e/ou física. O feminicídio tem tomado contornos epidêmicos em terras verde-amarelas. É bom lembrar que é considerado feminicídio o crime causado por questões que envolvam a diferença de gênero e o poder que um exerce sobre o outro. A maioria dos crimes é realizada pelo parceiro ou ex-parceiro da vítima.

E o que todos esses assuntos têm em comum? Uma deficiente educação sexual para crianças e jovens. Mas, afinal de contas, como podemos falar de educação sexual para crianças de três e quatro anos?

Bem, vou começar explicando que educação sexual não é ensinar prática sexual a crianças. Esse tipo de educação tem por objetivo orientar crianças e jovens para que conheçam, entendam e protejam seus corpos. Seja no quesito higiene, saúde em geral ou segurança. Uma criança de três anos, por exemplo, pode ser orientada sobre o pênis e a vulva/vagina, a importância em se cuidar dessa parte íntima, explicar que apenas pessoas autorizadas devem ajudar na limpeza, que se alguém tocar nas suas partes íntimas e isso o(a) deixar triste, que deve ser comunicado a outras pessoas em quem confia, que existem segredos bons e segredos ruins e que segredos ruins são aqueles que nos deixam tristes e não devem ser guardados. A partir daí, a criança vai entender que se alguém tocar em seu corpo e ela não gostar, ela deve contar para outras pessoas. Isso evita e previne abusos infantis.

Explicar que homens e mulheres têm os mesmos direitos e deveres evita que o machismo impere nas relações, reduzindo relacionamentos abusivos em casa e no trabalho, pais que abandonam mães com filhos recém-nascidos, estupro e outras violações sexuais e até mesmo o feminicídios, uma vez que muitos crimes como esse acontecem pelo sentimento de posse que o homem tem sobre a mulher.

A medida que a criança vai crescendo, ela deve ser orientada sobre outras questões que envolvem o sexo, gênero e a sexualidade, tal como a responsabilidade que temos pelos nossos corpos, o respeito a todas as pessoas que amam diferente, a prevenção da gravidez indesejada e das infecções sexualmente transmissíveis e, também, a enfrentar com maior naturalidade possíveis questões que envolvam a experiência e vivência da sexualidade. Isso evita que coisas assim sejam gatilhos para transtornos emocionais.

E se a educação sexual é tão incrível assim, por que muita gente tenta combatê-la? Então, estamos vivendo tempos difíceis onde uma onda conservadora está atingindo os lares em geral. O que antes ficava restrito a ambientes fechados como igrejas e templos religiosos tem se alastrado como praga pelos seis continentes. Essa onda vem junto com um medo generalizado espalhado por fake news como a mamadeira de piroca, o kit gay, as cartilhas ensinando sexo a crianças e provas com perguntas obscenas. Hoje, questionam fatos que já tinham saído da pauta há muito tempo. Freud explicou que quando insistimos muito no combate a determinada coisa, estamos, na verdade, refletindo uma repressão inconsciente àquele assunto, ou seja, se criticamos muito o consumo desenfreado de maçã é porque temos um desejo quase incontrolável de comer maçã, mas por algum motivo pessoal ou social, não nos permitimos, por exemplo.

Os posts de Jorge Riguetti poderiam passar despercebidos pela nossa timeline das redes sociais, se não fosse a defesa ferrenha contra a chamada "ideologia de gênero". Em sua rede, ele publicou e compartilhou diversos posts contra o fantasioso kit gay, alegando que esse tipo de educação pretende sexualizar as crianças e que esse assunto deve ser tratado em casa, pela família. Para muitos, ele é apenas um distinto militar conservador cansado do "politicamente correto" e "de tudo isso aí", mas ele foi investigado pela FBI e considerado uma das 100 pessoas que mais distribuía pornografia infantil do mundo. Sim, aquele distinto senhor que lutava contra a "ideologia que queria perverter crianças" era um dos maiores pedófilos do planeta. Para quem trabalha com educação sexual, isso não é nenhuma novidade. O perfil dos abusadores é quase sempre o mesmo: pessoas discretas, amigáveis e conservadoras. Combater o que chamam de ideologia também é uma ideologia, porém, do silêncio, do medo, do escondido, do obscurantismo e do conservadorismo.

Portanto, me arrisco a dizer - sem medo de errar - que os maiores interessados em impedir a educação das crianças, mantendo-as ignorantes e desapropriadas dessas questões é o próprio agressor. Uma criança não orientada adequadamente vira alvo fácil nas mãos de pessoas mal intencionadas. Evitar que esses assuntos sejam tratados em sala de aula é confiar a uma família pouco preparada uma tarefa que eles não sabem - ou não querem - fazer. Lembra que falei que a grande maioria dos crimes acontecem dentro de casa?

Uma dica: nunca deixe seus filhos com pessoas ultra-conservadoras. E saiba que quem mais perde com uma educação sexual nas escolas são os próprios machistas, feminicidas e abusadores.

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Leandro Faria  
João Geraldo Netto é marketeiro, barbudo, gay, soropositivo, ativista, apaixonado, inquieto, metódico, chato e muitas outras coisas. Além de escrever, eventualmente, a coluna Conversa + aqui no Barba Feita.
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