quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O Corpo Elétrico de Linn da Quebrada no Cinema Nacional





Já faz um tempo que venho repensando o que é quebrar barreiras e representatividade. Indiretamente, a palavra representatividade está ligada ao que hoje também é visto como o politicamente correto - que por si só já provoca revirar de olhos - e encaixada dentro de um conceito de minoria (que, por sua vez, está dentro de uma grande caixa em que se vê escrito em letras garrafais em tinta vermelha: MiMiMi). Ah! E também não podemos esquecer que o “conceito” de representatividade recai no que as pessoas de “bem” chamam de coitadismo ou vitimismo.

Lembro de quando conheci Linn da Quebrada. Foi com aquela voz diferente, cantando versos verdadeiros em Bixa Preta, que percebi o quanto é importante ouvir, vindo de alguém que faz parte de um recorte do mesmo universo que você, um pouco da verdade e de coragem. Veja bem, não cresci em comunidade carente ou em área de risco. Não sou negro, então não colocado dentro (tão rapidamente) da caixinha de minoria. Muitos dizem que até “não dou pinta” de ser gay. O que até considero muito ofensivo nos dias de hoje.

Mas me deixe relembrar o que senti ao escutar Linn da Quebrada pela primeira vez. A letra de Bixa Preta me remeteu instantaneamente ao meu passado. Me vi andar pelos corredores do meu antigo colégio, lá pela quinta série, e ser visto como o gay da sala. Isso porque, naquela época, por não gostar/jogar futebol e falar sobre novelas e televisão, eu era chamado de CDF da sala (avisando que em 1998 esse era um modo bem pejorativo para dizer que alguém era nerd) e o viadinho. Sim, viado ou viadinho sempre foi dito com um peso de desmerecimento. Como se fosse algo menor. Isso quando não trocavam a palavra por “menininha”. Mas aí eu acho que já estarei entrando em um território que não domino, caso queira analisar o uso dessa palavra. Mas o que quero dizer é que se direcionar ao feminino, para um garoto de 12/13 anos, era uma questão de ofensa... Ao menos esse era sempre o intuito. Querer que eu me sentisse “menor” só por ser diferente. 

Retomando mais uma vez, uns três anos atrás quando ouvi os versos:

“Bixistranha...
Loka preta da favela...
Quando ela tá passando...
Todos riem da cara dela!”

Meu coração começou a bater mais acelerado. Alguém não só estava legitimando sua origem, mas sentindo orgulho de toda sua trajetória de vida e marcando a luta de muitas bichas que estiveram por aí e deram sua cara à tapa. Mas que tiveram que se calar/foram caladas por “machos alfas” que sentiam sua frágil heterossexualidade ameaçada. 

Sei que não venho do mesmo mundo que a Linn representa em toda sua essência, mas 1/5 do que ela é me fez sentir em paz com meu passado. Já divaguei algumas vezes o quanto gostaria de voltar no tempo com a cabeça que tenho hoje. Creio que faria muita coisa diferente e a maior delas seria sentir orgulho de ser chamado de todos os “xingamentos” que fui. Ser o diferente é incomodar algo e se incomodamos é porque fazemos diferença...

“Que eu sou uma bixa loka preta favelada
Quicando eu vou passar e ninguém mais vai dar risada
E se tu for esperto, pode logo perceber
Que eu já não tou para brincadeira (eu vou botar é pra fuder)” 

E falei disso tudo por conta de um filme que assisti recentemente: Corpo Eletrico. Linn está no elenco e a trama do filme é um recorte na vida de Elias (Kelner Macedo), que tem 23 anos e trabalha em uma confecção de roupas em SP. Ao mostrar a vida do jovem, que não tem nada de solitário, o filme mostra o quanto estamos presentes na sociedade, mas muitas vezes só somos vistos quando existe uma “luz” sobre nós. Quando se é afeminado(a), preta ou não se esconde sua sexualidade em um armário de aparências. 

Corpo Eletrico é um filme que merece ser visto. Não é um filme sobre uma incrível jornada, mas sobre um momento na vida de um jovem sem ambição nenhuma e que vai levando sua vida ao se conectar com inúmeras pessoas e não possuir nenhuma vergonha sobre isso. 

A direção/roteiro de Marcelo Caetano é cirúrgica e precisa para fazer toda trama funcionar e o filme ser tão bom do jeito que é! Só a primeira cena de Elias deitado na cama, fumando um cigarro e sendo um James Dean tupiniquim já deixa você maravilhado com o que virá na próxima uma hora e meia de história. 

Talvez por ser um filme tão natural e por ter a Linn da Quebrada, com um momento bem icônico em uma cena em um banheiro, que viajei no tempo e percebi o quanto é poderoso se sentir representado. E olha que, como disse no início do texto, não possuo uma conexão tão ampla com a Linn, mas sinto tanto orgulho por ela ser quem é e por estar ocupando o espaço que ocupa hoje (o que inclui estar na Vogue Brasil em uma matéria intitulada Meu Espaço Minhas Regras).

E se quiser conferir o trailer do filme, basta clicar aqui!

Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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