terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Os Pecados Capitais e a Soberba Nossa de Cada Dia




A soberba é o pior dos pecados. Pelo menos para a Igreja. Experimente, seja você religioso ou não, entrar em uma missa para observar o movimento. Verá que todos rezam de mãos postas, ajoelhados, cabeça baixa. Está na Bíblia: “bem-aventurados os humildes”. Na tradição católica, o próprio inferno surgiu da soberba, com a queda do então anjo vaidoso Lúcifer e quando Adão e Eva sentiram-se tentados pela serpente para morder o fruto proibido e ter os mesmos poderes de Deus. 

Mas se os humildes ganham o reino dos céus, aqui, na Terra, o mundo é dos soberbos. Seria a soberba, então, o pior dos pecados ou a maior das virtudes? A soberba – também associada ao orgulho excessivo, à arrogância e à vaidade – virou o jogo nos tempos atuais e hoje é tão bem vista que é considerada uma das características de pessoas vencedoras. 

Como a ideia é trazermos essa reflexão para o nosso comportamento do dia-a-dia, saia da igreja, vá a um estádio de futebol e observe o atacante, o zagueiro: ombros para trás, cabeça erguida. Não é apenas uma questão de postura. Não só no futebol, mas também em outros esportes, por exemplo, crer – e levar o adversário a acreditar também – que é o melhor, assusta e inibe o inimigo. E na vida também é assim. A verdade é que a sociedade contemporânea está cada vez mais narcisista e individualista. Um certo grau de arrogância e soberba por vezes é até premiado. Desde pequenos somos incentivados a trabalhar nossa autoestima, com, basicamente, uma única mensagem: você precisa se amar acima de todas as coisas – enquanto o primeiro mandamento avisa que quem deve ser amado acima de tudo é Deus. E que em segundo plano, aquele onde temos nos colocado, pela tese teológica, deveríamos amar ao nosso próximo na mesma proporção que a nós mesmos. 

O soberbo (ou orgulhoso) anda, literalmente, de peito estufado, ombros jogados para trás, queixo erguido. No rosto, um sorriso constante, leve e sem mostrar os dentes, que mistura satisfação, mistério e desdém. Deu para visualizar direitinho, não? 

O gestual do soberbo não é aprendido por imitação. O orgulho e suas manifestações físicas nos tempos atuais, têm surgido como forma de intimidar rivais e, aos poucos, vão tomando conta de nossas atitudes sem sequer percebermos. Seria uma espécie de resposta adaptativa às ameaças, uma forma rápida de mostrar “quem manda aqui”. Estar cheio de si significa poupar recursos que despenderiam energia – como a raiva – caso fossem usados toda vez que um novo problema surge. É como se criássemos uma autodefesa para embargar o ataque e que aos poucos se funde a nós, moldando nossa conduta. Esse comportamento é muito meu, Julio. Tenho pessoas próximas, que dizem temer por mim por eu ser pequenininho e parecer indefeso. Mas coloco minha marra de pivetinho, fecho a cara e viro “bicho solto” como eu mesmo digo rs... Afinal, vá que o inimigo acredite que aquele macaquinho é mesmo um gorila King Kong? 

Mas a soberba também pode passar longe desse comportamento de adaptável defesa. Quando esse orgulho deixa de ter uma conotação boa e se torna uma amostra negativa que denota pretensão de superioridade, externando-se em manifestações ostensivas para menosprezar e massacrar os indivíduos considerados, por eles, como seres inferiores. O racismo, a xenofobia, a misoginia, a homofobia, o elitismo, o corporativismo, são exemplos de comportamentos que se caracterizam pela soberba. Mas nem só de “ismos” compõem-se as características do soberbo. Em verdade, toda a forma de preconceito é uma maneira de você retratar sua pretensa superioridade. O pré-conceito ou pré-julgamento lhe confere um poder de juiz que você, na verdade, não tem. Você se dá esse título. Ainda que sua classe social seja superior ao outro, isso é apenas um dado material-financeiro e que não lhe atribui a uma “classe humana superior”. Todos, ao morrermos, iremos entrar no mesmo processo de decomposição. Seja no mausoléu cravejado de detalhes de ouro e recoberto pelo mármore mais caro, seja pela cova rasa de uma vala. O destino da matéria humana é o mesmo. 

Recentemente, o mundo tem passado por crises coletivas de soberba. Condenar o outro por suas escolhas particulares (é claro que aqui eu não incluo os delitos contra a vida ou integridade física ou material de alguém), é uma prova do quão somos arrogantes em achar que nós temos o direito de dizer o que é certo e errado. Acolher tem se tornado um verbo cada vez mais raro. Ser gentil, sorrir, ajudar, ter compaixão, ou mesmo nesta incapacidade, abster-nos de proferir palavras duras e excludentes, tem sido um comportamento difícil de se ver. Pior que isso, as pessoas se vangloriam de ser e fazer. Que mundo é esse em que vivemos que se prega a Bíblia e não se coloca em prática a essência dela? Às vezes me sinto num tribunal, onde a prerrogativa é a interpretação da lei pelo juiz, em que as pessoas à minha volta, pretensiosamente sentindo-se magistradas, utilizam-se da sua interpretação equivocada da Bíblia para justificar suas próprias mazelas comportamentais. Condenam a reverência de imagens, alegando que a adoração seria somente à Deus, mas endeusam humanos com comportamentos condenáveis. Deixam de olhar para si, para seus próprios defeitos (quem não os tem?), para esconder em uma cortina de fumaça onde predominam o do outro. 

Para reflexão de hoje, me valho de uma frase muito interessante de Mário Sérgio Cortella: 
“Gente grande de verdade sabe que é pequena e por isso cresce. Gente muito pequena, acha que já é grande e o único modo dela crescer é tentar diminuir outra pessoa.” 

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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