quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Que Não Seja em Vão




Uma mulher espancada por mais de quatro horas por um rapaz com quem conversava havia mais de oito meses pela internet. Um apartamento cheio de sangue, que mais parecia um abatedouro. Mais de 40 pontos na boca, perda de dentes, fraturas e afundamentos nos ossos da face. E ainda existe, em fevereiro de 2019, quem queira culpar a vítima...

Estamos prestes a chegar a uma das festas mais bacanas e confusas da Terra, o Carnaval brasileiro. Onde, infelizmente, embora com alguma evolução, o machismo se faz presente. E ter esse caso tão emblemático de violência contra a mulher, nesse momento, só faz lembrar o quanto o machismo ainda impera - e mata. E que precisamos estar todos vigilantes.

Quantas e quantas vezes não ouvimos de nossas amigas (no meu caso, até da minha irmã) ou mesmo presenciamos situações de assédio, travestidas de um "foi só"? Foi só uma brincadeira, foi só uma cantada, foi só uma investida, foi só uma pegada no braço, foi só uma puxada, foi só um empurrão, foi só uma tentativa de beijo, foi só um beijo forçado, foi só um xingamento porque ela não quis. E, quantas vezes, ao se recusarem, não foram chamadas de vacas, vadias, piranhas, entre outras ofensas?

Importunação sexual, nesse Carnaval, não será mais contravenção. Vai ser crime. Previsto detenção para isso. Ao ouvir essa notícia em um carro particular essa semana, o motorista que estava comigo comentou: "Ah, mas não tem como controlar isso. Os caras já vão ter bebido, as mulheres vão estar lá. Não tem como a Polícia ter esse controle".

Na hora, fiz algo de que me arrependo: eu me calei. Deveria ter falado a ele que os tempos são outros; que, na verdade, a Polícia tem que vigiar como em qualquer crime, mas quem tem que ter esse controle e esse bom senso são os próprios marmanjos; que, além da bebida e da testosterona, entram nessa equação outras três coisas importantes: respeito, conscientização e educação

Infelizmente, vivemos numa sociedade que, majoritariamente, foi educada para que os direitos dos homens não só prevalecessem, como se sobrepusessem aos das mulheres. Sabe aquela história de os meus direitos acabam onde os seus começam? Parece que, na cabeça de muitos (homens e, inclusive, mulheres), os direitos das mulheres só começam onde termina o dos homens. Como que uma consequência e, não, um equilíbrio.

Triste ver casos como o dessa mulher espancada na Barra da Tijuca. Ver que seu agressor será indiciado por tentativa de feminicídio é o único alento em meio a tamanha brutalidade. Mas fica a pergunta: quantos casos como esse precisaram acontecer para que sejam exceção e, não, regra? Esse foi um caso que tomou notoriedade, que a vizinhança interferiu, que a vítima colocou a cara na mídia e denunciou. Porém, quantos não ocorrem na intimidade dos lares e nunca se tornam públicos? Quantos vizinhos não interferem por acharem que "em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher"? Quantas não se silenciam por medo ou por não quererem denunciar seus companheiros? Quantas serão julgadas por marcarem encontros afetivos ou sexuais? - E, veja bem, ela ainda teve a precaução (que a grande maioria não tem) de conversar com ele por OITO meses. 

Casos emblemáticos, ainda que com muito sofrimento, só devem existir para serem marcos de mudanças necessárias. Que assim seja com o crime em questão - que não seja em vão. E que o Carnaval já seja um momento de mais respeito e conscientização, e de diversão de fato para todos.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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