sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Tá Puxado!





Dois mil e dezenove começou ontem. Se olharmos para trás, estamos somente com 45 dias. Um ano-bebê ainda. Mas... já está exaustivo.

Todo mundo sabia que seria um começo de ano atordoado. O povo estaria sendo sacudido por conta da nova situação política. Bolsonaro teve a 3ª menor vitória no segundo turno desde a redemocratização. Muitos podem achar que ele teve uma vitória esmagadora – quase 58 milhões de votos contra 47 milhões de Haddad. Uma diferença de pouco mais de 10,7 milhões de votos. No entanto, abstenções, nulos e brancos somaram quase 43 milhões de eleitores. Se olharmos pelo lado que quase 90 milhões não votaram em Bolsonaro, era meio óbvio que não seria fácil...

Inabilidade no discurso e o notório despreparo em declarações controvertidas que o fizeram voltar atrás como o assunto da base militar norte-americana no Brasil, a mudança da sede da embaixada brasileira em Tel Aviv para Jerusalém e a saída do Brasil do Acordo de Paris, por exemplo.

Teve também aquela declaração insossa em Davos que não ajudou em nada e, no mesmo barco, o cancelamento da coletiva aos jornalistas internacionais onde o presidente poderia falar sobre os rumos do Brasil. Muitas bolas fora.

Ainda rolaram aquelas inacreditáveis declarações infantilóides de ministros histriônicos que obviamente viraram chacota na internet.

Pra piorar, o filho que foi eleito senador só se meteu em furada: teve aquela divulgação do relatório do Conselho de Atividades Financeiras (Coaf) que apontou operações suspeitas e movimentações bancárias atípicas na conta bancária de ex-assessores e ex-motorista e as tretas de possíveis relações com milícias...

Agora, está rolando o maior climão entre o outro filho, vereador, e o ministro da Secretaria-Geral da Presidência num basfond que está desencadeando a pior crise governamental em 45 dias de governo por causa de suspeitas de desvio de recursos do Fundo Partidário destinados ao PSL por meio de candidaturas laranjas nas eleições do ano passado em Minas Gerais e Pernambuco.

Além dessa turbulência política, teve essa série de desastres como o lamentável rompimento da Barragem em Brumadinho, que deixou mais de 150 mortos e 200 desaparecidos, o que já pode ser considerado o maior desastre industrial do século. Também tivemos aqui no Rio de Janeiro uma série de calamidades devido às conhecidas chuvas de verão, causando desabamentos, deslizamentos e mortes. Moradores do Vidigal e Rocinha já estão sendo obrigados a deixar suas casas por causa do risco de mais tragédias, já que existem várias pedras que podem rolar a qualquer momento.

Também fomos surpreendidos pelo incêndio nos alojamentos do Centro de Treinamento do Flamengo, onde dez jovens que faziam parte das categorias de base do time, morreram... Nem consegui acompanhar a história daqueles jovens que tiveram a vida interrompida tão brevemente e, provavelmente com tantos sonhos pela frente.

Essa semana, mais uma tragédia: Ricardo Boechat, um dos maiores jornalistas brasileiros na ativa, morreu em um acidente de helicóptero em São Paulo. Conheci Boechat pessoalmente na elaboração da tradicional campanha de doação de sangue que ele construiu junto com minha equipe quando eu trabalhava no Hemorio. Fizemos várias reuniões até deixar a ação redondinha. Boechat se dedicava tanto àquela ação que, em todos os anos, ele transmitia o programa da Cinelândia, no Centro do Rio, local em que a campanha acontecia. Passava protetor solar na sua famosa careca e fazia questão de, todo sorridente, conversar com todos os doadores, tirar fotos e estimular os ouvintes a irem lá, para bater um papo com ele. Era quase um superstar.

E, ainda essa semana, lá se foi Bibi Ferreira... uma diva dos palcos. E não podemos dizer que também não foi outra tragédia só porque ela já estava bem velhinha. Perdemos todos.

Perdemos centenas de trabalhadores soterrados, perdemos a paz da moradia, perdemos futuros talentos, perdemos a experiência, a perspicácia e a lucidez, perdemos a voz. Estamos também perdendo identidade por sermos um país dividido, enterrado em sua própria sordidez.

Dois mil e dezenove chegou rasgando. Hora de dar uma freada e meditarmos um pouco. Afinal, dois mil e dezenove só tem 45 dias.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

2 comentários:

Marcia Pereira disse...

Brilhante, como sempre! É hora de respirar e dizer: em frente, apesar de tanta barbaridade!

Marcia Marino disse...

Sabe a frase Forca, Fé e Foco... Pois é... É o que o brasileiro esta precisando para não entrar no desespero de um começo de ano tão ruim dos últimos tempos. Estou temerosa. Mas, sigo em frente com o mantra: Tudo vai ficar bem. ❤️🙏