sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Um Ilustre na Multidão




Duas horas da tarde e eu tinha acabado de almoçar no shopping Botafogo quando dei de cara com o Antônio Cícero. E certamente um monte de gente aqui certamente nem deve saber quem é ele, pois tive a mesma certeza quando o observei circulando tranquilamente pelos corredores do shopping. Entrou na Lindt e a atendente entregou um chocolatinho para degustação como faz com qualquer mortal que aparece na loja. Ficou dois minutos lá e saiu lambendo os dedos, sorvendo resquícios do doce. E de lá, seguiu descendo as escadas rolantes, invisivelmente.

E aí fiquei divagando... Coisas ilógicas que surgem na nossa cabeça, sem querer. Fiquei imaginando na infinidade de pessoas que cruzam nossos caminhos, cada um com seu universo particular e numa outra imensidão de pessoas que nem sequer tem acesso a esse cosmo de informações.

Atualmente, existem quase 8 bilhões de habitantes na Terra, distribuídos em quase 200 países. Com uma taxa de crescimento de pouco mais de 1% ao ano, em 2055 teremos 10 bilhões de pessoas. E gente... 10 bilhões de pessoas é algo grandioso demais e foge totalmente do meu entendimento sobre dimensões.

Eu lembrei de um fato interessante... Quando o Michael Jackson morreu, houve uma comoção no mundo inteiro. Michael era um ser que era conhecido por pelo menos umas seis bilhões de pessoas! Dá pra imaginar que coisa mais louca? O cara era conhecido da Antártida à Namíbia, da Groenlândia à Índia... Todo mundo tinha acesso ao universo particular do astro. E acho que é isso que faz as pessoas pirarem.

Antônio Cícero estava lá pelo shopping, invisível. Sem pretensão de que ninguém o abordasse para fazer uma selfie (mas juro que fiquei com a maior vontade de fazer isso) ou dar um autógrafo. E tenho certeza de que ele é feliz assim. Cícero é filósofo, escritor, poeta e um monte de outras coisas; e é certamente, uma das figuras mais inteligentes deste planeta. Um de seus livros, O mundo desde o fim, traz uma reflexão filosófica sobre as questões atuais da modernidade tão lúcida que surpreende.

Seu poema Guardar foi incluído em 2001 na antologia Os cem melhores poemas brasileiros do século. Antônio Cícero escreve desde muito jovem, mas seus poemas só começaram a ficar mais conhecidos quando sua irmã, a cantora Marina Lima, começou a musicá-los. E simplesmente as músicas mais fodas da cantora, tem o dedo dele: Fullgás, Pra Começar, Acontecimentos, Charme do mundo e À francesa são alguns exemplos. 

Também tem aquela co-autoria maravilhosa com Lulu Santos em O último romântico e a icônica Inverno com Adriana Calcanhotto (aquela do “o inverno no Leblon é quase glacial”).

Fiquei relembrando da cena da atendente da Lindt entregando uma degustação do chocolate para um simples mortal... Certamente, ela também não sabia que estava ao lado de um dos escritores mais representativos da literatura nacional e, ironia do destino, para um imortal. Cícero foi eleito em meados de 2017 para a cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras. Mesma cadeira que já foi de Otávio de Faria e Joaquim Nabuco. 

Enquanto ele descia as escadas rolantes carregando um livro nas mãos e as pessoas sequer o encaravam, lembrei de um outro poema dele, que fez muito sucesso na voz de sua irmã famosa e tinha tudo a ver com aquele momento. A música se chama Virgem e certamente está na sua memória...

“As coisas não precisam de você / quem disse que eu / tinha que precisar?
As luzes brilham no Vidigal / e não precisam de você
Os Dois Irmãos também não...
O Hotel Marina quando acende / não é por nós dois
Nem lembra o nosso amor...
Os inocentes do Leblon / esses nem sabem de você
O farol da ilha só gira agora...
Outros olhos e armadilhas”
Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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