quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Vidro: Impressões de um Bom Filme Frágil




Ver filmes do M. Night. Shyamalan é sempre a certeza de tentar ser surpreendido pelo diretor/autor. Não é diferente com Vidro, que está em cartaz e faz um amarrado de uma trilogia que começou em 2000 com Corpo Fechado e parecia adormecida até chegar Fragmentado, em 2016. Mas o filme nos desperta sentimentos de empolgação e desapontamento ao longo das duas 2 horas e 9 minutos, parecendo ser frágil como o que dá nome ao seu título. 

Havia algum tempo que já não acompanhava Shyamalan mais de perto: Sexto Sentido foi um dos filmes que mais me marcaram, pela forma como foi conduzido logo na estreia do diretor; Corpo Fechado foi um que eu gostei à época (eu tinha uma agenda onde colocava as minhas cotações em carinhas – muito antes de existir os emojis – e tinha dado um 😊 pra ele); Sinais foi uma decepção para mim e, embora tenha garantido alguns sustos e suspense, não me conquistou. Fiquei um bom tempo sem ver nada e dei uma chance com A Vila, que gostei bastante e entendi como uma redenção naquele momento de sua carreira. E não vi mais nada até assistir a Fragmentado esse ano, para me preparar para Vidro.

Creio que esse afastamento da minha parte se deu pelo estilo do cineasta. O seu suspense que (quase) sempre esbarra em algo sobrenatural e de forma muito comercial não é o tipo de coisa que consegue me arrebatar sempre. Em Sexto Sentido, Shyamalan falou a minha língua por eu acreditar no que ele trazia: espíritos e a sua percepção sobre si mesmos. Minha interpretação de Corpo Fechado (cujo título em inglês, Unbreakable, faz mais sentido para a triologia) como uma história real de super-heróis, tentando trazer verossimilhança para esse mundo épico, me fez gostar da película. E em Vidro, o diretor tenta nos mostrar que heróis e vilões com poderes sobrenaturais podem existir, sim, mas que existe algo que possa fazer com que nós não consigamos ver isso. 

A história de Vidro é relativamente simples (e aqui não tem nenhum spoiler que já não esteja no trailer do filme): Corpo Fechado termina dizendo que Elijah Price, o Senhor Vidro, (Samuel L. Jackson) foi internado em um sanatório e que David Dunn (Bruce Willis) seguiu fazendo benfeitorias como herói. Em Fragmentado, a Fera vivida por James McAvoy junto a outras 23 personalidades (parte dela compondo o que é chamado de “Horda”) emerge e mostra a sua visão de quem ela acredita que precisa ou não ser punida – tendo poupado, inclusive, uma adolescente chamada Casey (Anya Taylor-Joy). 

No novo filme, descobrimos que Dunn já é um justiceiro procurado pela polícia e a Fera continua fazendo suas vítimas em cativeiro junto a algumas personalidades mais dominantes vividas por McAvoy, como o menino Hedwig e a controladora Patricia. É natural e até esperado que eles se encontrem – e isso acontece logo no início. Ambos se juntam ao Senhor Vidro num sanatório sob coordenação de uma terapeuta especializada em pessoas que acreditam serem super-heróis, chamada Dr. Staple – vivida pela excelente Sarah Paulson, mas que está chatííííssima no papel. 

Preciso dizer que saí do cinema gostando mais do filme do que hoje em dia, após ler, ver e ouvir tantas críticas diversas. Em alguns momentos, o autor parece duvidar um bocado da nossa inteligência – como, por exemplo, quando coloca apenas dois responsáveis se revezando para tomar conta de um sanatório enorme e de “segurança máxima”; ou quando usa luzes hipnóticas para trocar personalidades de James McAvoy (utilizadas aqui à exaustão, mostrando algumas que não haviam aparecido ainda em Fragmentado). Mas ainda assim podemos fazer a licença poética e, embora ser improvável, não tratar como impossível. 

O maior feito dessa trilogia é mostrar como seria o despertar de um super-herói ou de um mega-vilão que viveriam normalmente entre nós – e não necessariamente viriam de outro planeta ou passariam por um processo mutante em alguma clínica. Vidro amarra bem essa tese, mas o final decepciona um bocado. Primeiro, porque eu já imaginei desde o início de onde viria a reviravolta – mas, quando ela veio, fiquei sem entender nada. O autor precisa apresentar para a gente a explicação do seu plot twist, ou seja, não é algo que possamos pescar mesmo sendo perspicazes. 

Vale a pena assistir? Vale. Em especial toda a trilogia – da qual Fragmentado é, sem dúvida, o ponto mais alto. James McAvoy está incrível nos dois filmes que protagoniza; Samuel L. Jackson também está perfeito no papel do título, e Bruce Willis... bom, ele é aquele cara que nunca tem uma atuação incrível, mas que a gente sempre gosta de ver. E mesmo a personagem chata da Paulson não chega a matar o seu brilho. 

Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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