quinta-feira, 14 de março de 2019

A Gente Se Acostuma Com a Dor




“A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.” Demorei muito tempo para entender o que Drumond quis dizer com essa frase, acredito até que foi tempo demais, mas hoje, finalmente posso dizer que concordo profundamente com ela. 

Talvez até tenha entendido há muito tempo, mas só essa semana que minha ficha caiu. Esse é o tipo de reflexão que cera quente pode provocar em você. Já fazia algum tempo que não depilava minhas costas. Uma completa junção de falta de tempo misturado com outras prioridades, pouco dinheiro e ausência de alguém para exibir minhas costas lisas ao vivo. Sabem como é, né? Vamos deixando para depois, depois, só que esse depois nunca chega. 

Mas foi ali, entre uma arrancada de pelos e outra, que a minha ficha sobre a dor e o sofrimento caiu de uma vez. Vocês já perceberam que quando a gente fala em sofrer e em estar em dor, pensamos automaticamente que isso tem relação direta com o coração ou sobre o coração? Afinal, crescemos assistindo em filmes, novelas e séries do clube dos corações partidos. Tem sempre alguém, que na maioria das vezes é a mocinha ou o mocinho da trama, que sofre exclusivamente por alguém. Só que esse não é o único tipo de sofrimento. A gente também sofre quando sai do jardim de infância e vai para o primeiro ano, por exemplo. É um sofrimento que dura pouco tempo e, quando refletimos, até esquecemos que existiu. Isso em alguns casos. Conheço pessoas que ficaram traumatizadas por toda vida por conta dessa simples mudança social quando eram pequenos. Igual ao caso de uma amiga que não soube lidar com a troca de professora e colégio lá na infância. Resultado? Até hoje possui crises infinitas quando muda de endereço ou de emprego. Quando o namoro acabou, o drama não era por perder o noivo, mas por não querer se despedir da família dele... A coitada se apegou aos sobrinhos do namorado e adorava a quase futura sogra. Uma doideira total. 

Eu mesmo fui apegado ao meu grupo da oitava série e sofri, antecipadamente, um ano antes da mudança de colégio. O problema ali era dizer adeus ao grupo de amigos que havia construído ao longo de quatro anos. Mas na real? Pensando hoje, foi a melhor coisa que me aconteceu, sério mesmo. Ainda mantenho contato com minha melhor amiga da época. Então nada se perdeu, eu evolui. Simples assim.

Pensando sobre essa questão da dor, comecei refletir sobre apego. Às vezes, somos condicionados a ter esse apego excessivo. Na cultura americana, que se propaga em filmes e séries sem fim, os filhos saem da casa dos pais e a ideia é que não voltem nunca mais. É da faculdade pro mundo... 

Em contrapartida, a cultura latina é totalmente o oposto! O normal é manter todo mundo bem próximo da família. E talvez venha daí o problema da galera da minha geração (eu incluso) que já saiu da casa dos vinte e pouco anos, mas a cabeça continua a funcionar quase que da mesma maneira. É como se a gente estivesse falhando na missão em ser adulto. Mas, na real, a gente não tem ideia do que é ser “adulto” e, algumas vezes, a impressão que tenho é que tudo se resume a pagar boletos...

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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