sexta-feira, 1 de março de 2019

A Verdadeira Fantasia




Já posso ouvir o som dos repiques.  A cidade está mais brilhante e nossos passos, mais agitados.  Chegamos a mais um início da festa mais bacana do ano, o maior espetáculo da Terra.  Daqui até quarta-feira, a cidade para e, o que já era Torre de Babel se mescla ainda mais.  Momo comanda a folia e, por mais que você não seja um entusiasta, sempre terá uma boa lembrança envolvendo confetes e serpentinas.

Todo mundo que me conhece sabe o quanto eu sou um eterno apaixonado por Carnaval.  Digo que sou um roqueiro-sambista, com louvor.  Uma de minhas primeiras memórias remetem ao desfile da Beija-Flor de 1978, A criação do mundo na tradição nagô, com os homens negros da comissão de frente fazendo uma apresentação tradicional, o carro abre-alas minúsculo para os padrões das agremiações de hoje e mulheres seminuas sambando em cima.  Hoje isso é algo normal, mas naquele fim da década de 1970, era inédito (e escandaloso).  

Naquele ano a Beija-Flor foi consagrada tricampeã.  Já tinha desbancado “as quatro grandes” (Mangueira, Império Serrano, Portela e Salgueiro) em 1976, com a estreia do genial Joãosinho Trinta com um enredo polêmico sobre o jogo do bicho. 

Para uma escola que sempre foi vista como anã e com enredos militares de extrema-direita que exaltavam políticos e a história do Brasil da forma que a ditadura gostaria que fosse contada, foi uma guinada de 180 graus.  Ousadia sempre foi a palavra de ordem na escola de Nilópolis e, talvez por isso, me tornei seu grande fã, pois fugia da mesmice. 

O pequeno João 30 sempre foi um visionário.  Dizia que a Sapucaí era o maior palco do mundo.  E que por ela passava um cortejo de milhares de atores nos quatro dias de folia.  Sempre imaginou uma avenida coberta, com luzes especiais e uma produção hollywoodiana.  Um dia, quem sabe, os desfiles deverão ser projetados da forma que ele idealizou, assim como coisas que achamos corriqueiras: alas teatralizadas, resplendores, verticalização da ótica do desfile, carros alegóricos gigantescos e luxo, muito luxo. 

Em uma de suas frases mais conhecidas, o grande carnavalesco dizia que “o povo gosta de luxo.  Quem gosta de miséria é intelectual”.  Com sua criatividade infinita, Joãosinho transformava lixo em luxo.  Sobras de isopor em marfim.  “Reluziu... é ouro ou lata?” era a primeira frase do lendário desfile Ratos e urubus, larguem minha fantasia, de 1989; aquele apoteótico desfile do Cristo coberto com um plástico preto e com a frase “mesmo proibido, olhai por nós”.  Um desfile dentro de um desfile.  Duas comissões, vários casais de mestre-sala e porta-bandeiras, um abre alas esfarrapado, fantasias rasgadas, mendigos invadindo banquetes e a diretoria (e o carnavalesco) com uniformes de garis.  Uma revolução na estética dos desfiles.  Talvez o vice-campeonato mais injusto da história do Sambódromo (naquele ano a Imperatriz Leopoldinense ganhou da Beija-Flor por 0,5 ponto com um desfile morno visualmente falando, mas com um sambão clássico - o conhecido Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós!).

Ah, Sapucaí... Avenida de sonhos, de tragédias, de gritos, choros, sorrisos e explosões.  Não consigo imaginar um outro lugar que congregue tantas emoções tão intensas em um único local.   Ali, bem no início quando a sirene toca e a bateria invade o setor 1, o pelinho do braço arrepia.  As detonações dos fogos de artifício se projetam nos olhos dos componentes, que choram copiosamente.  Um trabalho de um ano inteiro que precisa cruzar os 700 metros de extensão em puro êxtase, canto, exaltação, sangue, suor e libertação.

Joãosinho Trinta sempre afirmou que o Carnaval é o nosso único momento de realidade.  Durante os demais 360 dias do ano somos personagens de nós mesmos, mas nos quatro dias de festa, mostramos o nosso verdadeiro rosto. 

“Vá você fazer o carnaval de uma escola de samba no morro e pedir pro crioulo sair de escravo, ele te manda à merda... Porque escravo ele já e o tempo todo. Ele gosta é do luxo, ele quer ser príncipe e princesa, que na verdade, ele é e foi e tem direito de continuar a ser”, dizia o mago.

Portanto, sejamos quem quisermos ser.  Momo já invadiu a cidade.  Liberte-se e viva quem você é, de verdade.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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