sexta-feira, 15 de março de 2019

Alfredinho e o Jeito Carioca de Ser




Na época em que eu cursava Jornalismo, conheci o Alfredinho, dono do famoso bar Bip Bip, em Copacabana, através de um trabalho de conclusão da disciplina do professor Luís Fernando Vieira, um profundo craque do universo da cultura MPB e apresentador/produtor de diversos programas de rádio. 

Na verdade, a minha tarefa era entrevistar o César Costa Filho, compositor nascido em Vila Isabel que teve canções gravadas por Elis Regina, Maysa, Beth Carvalho, Clara Nunes e Elizeth Cardoso.  Mas, chegando no Bip Bip, onde tinha marcado a entrevista, fiquei encantado com a figura folclórica de Alfredinho.  O bar, com uns míseros 20 metros quadrados se transformava num palácio do samba ao ar livre.  Fiz a entrevista com o César, que foi sensacional, e voltei ao bar algumas vezes depois, quando pude assistir algumas boêmias rodas de samba com a Cristina Buarque e o Elton Medeiros, que sempre batiam ponto no reduto, além de Teresa Cristina, Geraldo Azevedo e Paulinho da Viola. 

Bip Bip tinha um quê de magia.  Gênios como Tom Jobim e Milton Nascimento já estiveram naquele bar-cubículo e as festas nunca tinham hora pra começar (e nem acabar).  Lá não existiam garçons.  Era como se estivéssemos em nossa própria casa: abríamos a geladeira, pegávamos as cervejas estupidamente geladas e arranjávamos uma forma de conseguir um espaço (em pé mesmo) e curtir a vibe do lugar.

Alfredinho era sempre muito ranzinza e vivia pagando esporro pra todo mundo.  Aliás, diz a lenda que se você nunca tomou bronca do Alfredinho é porque nunca esteve no Bip Bip.  Eu sempre dava muita gargalhada com os esporros, mas a cara de ogro era só uma fachada.  Alfredinho foi um grande agitador: sempre envolvido em ações sociais, como doações de sangue, distribuição de cestas básicas para os moradores das comunidades do Pavão-Pavãozinho, Cantagalo e Rocinha e os clássicos “minutos de silêncio”.  Um dos últimos, inclusive, gerou um grande tumulto e Alfredinho foi parar na delegacia após discutir com um policial que não concordou com a referência à vereadora Marielle Franco.

Curiosamente, o bar abriu as portas no dia 13 de dezembro de 1968, exatamente no mesmo dia em que o Brasil sofreu o golpe do AI-5, no governo Costa e Silva.  Alfredinho fugia da ditadura e encontrou ali, seu local preferido para discutir, durante os anos de chumbo, política e futebol, sempre regados por um sambinha ou um chorinho.

Alfredinho acabou se tornando o dono do bar em 1984, quando o país já vislumbrava a entrada da democracia, regime que sempre existiu entre os frequentadores.

Alfredinho e o Bip Bip fizeram parte de minha construção como cidadão.  Acredito que aquele verdadeiro espírito do carioca sempre esteve presente ali, naquela figura do bonachão ranzinza. E, por isso, a coluna do Barba Feita de hoje é dedicada a ele.  Alfredinho se foi no último dia 9, aos 75 anos, do jeito que tinha que ser: partiu em pleno sábado de carnaval, com a cidade repleta de confetes e serpentinas.  Mais uma prova definitiva de que o mundo está se tornando chato demais.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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