sexta-feira, 22 de março de 2019

Momentos Que Não se Perdem no Tempo








Não é de meu costume assistir à programação de tevê aberta. Mas no último fim de semana, enquanto espreguiçava no sofá da sala, pausei o controle no Fantástico, enquanto passava uma matéria especial sobre o brutal episódio da escola pública em Suzano, na grande São Paulo.

Talvez, movido pela minha própria indignação causada por aquele atentado lamentável, assisti atento àquela matéria que, em um determinado momento, contou a história de duas meninas: Beatriz Fernandes e Letícia Nunes, de 15 anos. Beatriz, muito bem articulada, explicava que já tinha percebido que algo de ruim estava acontecendo quando ouviu de longe, o estampido dos tiros e a correria dos alunos. Beatriz tentava acalmar a amiga Letícia que tem problemas cardíacos.

Chegaram, em um momento, a encontrar o assassino pelos corredores da escola, que atirava à esmo. Um dos tiros atingiu de raspão o braço de Beatriz e atravessou o corpo da amiga, que caiu no chão. Beatriz ainda chegou a discutir com o transtornado rapaz para que não atirasse, antes de levar mais um tiro, desta vez, no rosto. Mesmo em meio a toda aquela confusão, e mesmo feridas, em momento algum as duas amigas se separaram. Permaneceram unidas de mãos dadas, com um gesto de extrema proteção. Com voz trêmula e muito embargada pela emoção, Letícia explicava que a união de suas mãos unidas era o verdadeiro significado e valor da amizade. “Se tivéssemos que morrer, iríamos morrer juntas!”

Aquela história mexeu muito comigo no momento e nos dias subsequentes. Fiquei pensando na loucura psicótica que o país está vivendo e nas transformações radicais que a sociedade está vivendo. Em algum momento, perdemos em alguma esquina da vida, a leveza dos pequenos gestos das amigas, do abraço apertado, das risadas despretensiosas, dos papos madrugada adentro.

Nesta mesma semana, estava tentando pôr uma ordem no caos generalizado de meu armário quando encontrei uma caixa repleta de cartas antigas, na sua maioria, escritas há mais de 30 anos, entre 1987 e 1989. Antigamente, usávamos nosso tempo vago para escrever aos amigos. As reli como se tivesse fazendo aquilo pela primeira vez. Estavam ali sentimentos intactos, momentos de ansiedade adolescente, angústias e sonhos. A grande maioria delas revelava a incerteza do que o futuro guardava para uma turma que acabara o ensino médio, algo como “o primeiro ano do resto de nossas vidas”. Vivíamos em um mundo onde ainda não existiam celulares ou redes sociais. O telefone fixo era um luxo para poucos e sequer tínhamos dinheiro para pegar um ônibus e fazer uma visita aos amigos que moravam em bairros distantes.

Relendo, gargalhei com muitas, chorei com outras. Em todas as entrelinhas, havia o medo do afastamento e a preocupação de não deixar a nova rotina atrapalhar aqueles momentos inesquecíveis. Lutávamos para que nada terminasse, ou que o tempo “só nos derrubasse no final” como na canção do Pato Fu.

Lembrei novamente das duas meninas da matéria do Fantástico e torci para que realmente elas nunca perdessem o contato, o carinho e a gratidão. Pedi para o Senhor do Tempo, de alguma forma, reservasse a nova oportunidade de vida para que o pacto de amizade se tornasse cada vez mais intrínseco.

Me deu uma vontade imensa de emoldurá-las e fazer uma exposição com aqueles belos quadros. De uma forma ou de outra, nas frases escritas à mão ou datilografadas, estavam as pinceladas nervosas de Van Gogh, a meticulosidade de Da Vinci, o surrealismo de Magritte, embalados pela trilha sonora do Duran Duran, The Cure e Smiths.

Entre lágrimas e o sorriso de canto da boca, estavam ali, em minhas mãos, a concretude de que a verdadeira amizade e o amor podem resistir bravamente ao tempo. Basta acreditarmos nela.

Leia Também:
Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
FacebookInstagram


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: