sexta-feira, 29 de março de 2019

O Grande Irmão Está de Olho em Você





Assumir que assisto o programa Big Brother, muitas vezes tem a mesma conotação de que pratico assassinatos em série.  Me julgam como um criminoso sem nenhuma possibilidade de perdão: prisão perpétua ou fogueira em praça pública para deixar de ser imbecil.

Sempre assisti o programa e nunca tive nenhum problema em assumir isso.  Durante três meses fico imerso naquelas histórias de ilustres desconhecidos, mas que muitas das vezes possuem aquele mesmo perfil de um colega de trabalho, de um vizinho ou de um grande amigo de infância.  Por isso acabamos detestando ou nos identificando com alguns deles. 

Inspirado no livro 1984, de George Orwell, o programa já era sucesso no mundo quando foi lançado em 2002 no Brasil.  Em 2019, chega à sua 19ª edição bastante fragilizado.  De uns tempos pra cá, a fórmula parece ter se repetido, como aqueles bolos da vovó que ela faz sem sequer olhar os ingredientes da receita.  Já não há alarmes ou surpresas.  As provas já não assustam mais; a neura do confinamento se esvaiu e os participantes parecem que estão tirando umas férias em um spa.

Pedro Bial faz falta.  Aqueles textos filosóficos sobre o nada ou sobre o tudo desapareceram no discurso imediatista de Tiago Leifert.  Falta a beleza de uma Grazi Massafera, a inocência sexy de uma Sabrina Sato, o discurso enfático de um Jean Willys, uma louca Tina batedora de panelas pela madrugada adentro.  Tudo parece hermético e insípido e sequer há emoção na despedida, mas continuo assistindo.  Afinal de contas, o que faz do programa atrativo? 

Nunca assisti BBB com a lógica do que o programa espera de seus espectadores.  Nunca votei em nenhum dos participantes, em nenhuma edição.   Nunca gostei dessa coisa interativa estilo “você decide”.  Aliás, acho essa participação do público um porre.  Deveriam seguir outro modelo, como o norte-americano, onde eles mesmos decidem quem fica, desenhando um jogo mais inteligente.   Gosto de assistir a maneira pela qual os participantes vão se transformando ao longo dos meses em busca de fama e dinheiro. 

Ultimamente temos visto a prática do mutirão de votos, que, para mim, é uma grande bola fora.  Pelo que me lembre, o primeiro a levantar uma legião de fãs, ávidos para fazer até o dedo cair de tanto votar, tenha sido Max Porto em 2009, que usou e abusou dos amigos nas redes sociais para sagrar-se campeão.  Mas... o programa ficou na mão de uma torcida organizada? 

As edições posteriores tiveram campeões sem tempero e alguns, inclusive, com desvios de caráter.  E aí, além de tentar entender o que se passava ali na cabecinha daqueles “sobreviventes”, eu tentava analisar que a maioria dos votos refletia a própria imagem de uma sociedade doentia.  

Ganha quem o povo quer.  E esse querer revela, muitas vezes, imagens sombrias e assustadoras.  Nesta última edição, a participante Paula já desponta como a campeã da temporada.  No último “paredão”, a sister teve apenas 3,85% de rejeição.  E quem é essa pessoa?  Típica patricinha mimada que não compreende determinados assuntos, ironiza e ridiculariza os demais participantes pela aparência com comentários preconceituosos e racistas, mas acha que as pessoas se fazem de vítimas.

Assim que sair do programa, a loura precisará depor na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância por diálogos gravados no programa nos quais critica outro participante, Rodrigo, negro e militante LGBT.  “Eu tenho muito medo do Rodrigo. Ele fala o tempo todo desse negócio de Oxum, que ele conhece. Eu tenho medo disso, mas nosso Deus é maior”, disse.

Outra vez, relatou em uma conversa com os outros participantes, frente às câmeras, que tinha ficado indignada quando soube de um caso de feminicídio onde o criminoso não era um “favelado”, e sim, um “branquinho”.  E completou outra vez que tinha beijado um rapaz, mas “não sabia que ele morava em uma favela”. 

Declarações homofóbicas também já foram vociferadas pela mineira.  Para ela, alguns homossexuais provocam as agressões que sofrem por tentarem se comportar na rua como pessoas “normais” se beijando em shoppings, taxado por ela como algo “exagerado”.

Em outros tempos, Paula já teria sido eliminada.  A versão Caco Antibes real destila preconceito, mas a grande maioria das pessoas que a defende diz que “ela não é nada disso, apenas diz o que pensa”, ou então que ela é “autêntica”.

Os menos de 4% do último paredão já apontam Paula como a campeã do reality. O público que se identifica com a loura é o mesmo que enxerga o assunto como mimimi.  E isso é assustador. Ou não... já que vivemos essa mesma rotina assustadora em outros níveis.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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