quarta-feira, 27 de março de 2019

O Que os "Surubões" Têm a Nos Ensinar?



Em um intervalo de duas semanas, dois "surubões" ganharam notoriedade no Brasil: o de Fernando de Noronha, supostamente envolvendo famosos, e outro entre vários rapazes aparentemente homofóbicos em Rondonópolis, interior do Mato Grosso. Em ambos os casos, cabe uma análise do porquê de dois atos que deveriam ser íntimos ganharem tanta visibilidade e curiosidade pública.

Primeiro é preciso lembrar o seguinte: fazer sexo com apenas uma pessoa ou várias ao mesmo tempo é uma preferência de quem o faz e ponto. Sabemos das inúmeras questões morais/religiosas que perseguem há séculos tudo aquilo que não cabe nas páginas da Bíblia como correto. O mundo precisou de uma onda de libertação sexual na década de 1970 mas, de lá pra cá, parece que encaretou um bocado de novo. E quando eu digo careta, veja bem, não é que ninguém precise fazer nada. Mas que todos devem respeitar as preferências dos outros se aquilo não o fere (inclusive não gostar de sexo é uma opção a ser respeitada também).

O "Surubão de Noronha" chamou a atenção por envolver famosos globais. Muita gente questionando quem teria pego quem, atores casados sendo questionados por estarem no meio... Mas, por acaso a gente sabe qual é o acordo de cada um deles? E se esses atores tiverem relacionamentos abertos e tenham justamente raríssimos momentos de intimidade como esse em um local mais isolado, já que a fama os impede no dia a dia? Isso os torna menos talentosos, queridos ou mesmo exemplares? Não é bem melhor que eles tenham esse tipo de acordo do que traírem um ao outro? E outra: isso não diz respeito apenas a eles?

Já o "Surubão de Rondonópolis" teve a sua repercussão porque os rapazes envolvidos, que interagiam entre eles, seriam declaradamente heterossexuais homofóbicos e machistas. Nas redes sociais, se orgulhavam por serem eleitores do presidente Jair Bolsonaro e a favor da liberação das armas. Um deles, inclusive, ao ser procurado por uma equipe de reportagem pelo Instagram, teria feito ameaças aos jornalistas antes de apagar sua conta na rede. 

Isso só mostra o quanto a masculinidade heterossexual é algo frágil e que precisa ser reafirmada em público para existir, travestida de uma homofobia e de um machismo que vão contra o que muitos sentem no seu íntimo. O medo de lidar com o disruptivo ou o transgressor faz muitos violentarem a si mesmos, sem sequer se enxergarem dentro de um armário; e essa violência acaba se multiplicando para atacar tudo aquilo que parece ameaça à sua masculinidade. 

Os surubões que vieram a público, na verdade, só mostram como o brasileiro, internacionalmente conhecido por sua sensualidade, é um povo bem do moralista. Lembro-me bem de quando lancei meu livro Perversão, todo sobre sexo, e as reações das pessoas, muitas vezes chocadas. E em meu livro também traz uma frase de Nelson Rodrigues que não me canso de repetir e que cabe bastante aqui:
 "tarado é toda pessoa normal pega em flagrante."
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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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