terça-feira, 12 de março de 2019

Quando a Luxúria Deixa de Ser Um "Inocente" Pecado Capital




"Quem nunca pecou que atire a primeira pedra!", já disse Jesus lá na Bíblia. Mas, dependendo da intenção de quem jogasse, também poderia ser considerado um pecador. Evitar os sete pecados capitais, hoje em dia, não é uma tarefa das mais fáceis. É por isso que a nossa trajetória está repleta deles. Saber como moldaram a história do mundo, como foram criados e modificados ao longo do tempo é entender onde estamos e aonde queremos chegar. Dos liberais templos pagãos da Grécia aos falsos pudores medievais. Dos encantos dos portugueses pelas índias e escravas às revoluções sexuais dos tempos modernos, deixemos os pudores de lado para mergulharmos na Luxúria, que talvez seja o mais tentador de todos os pecados. E neste terceiro post vamos falar do segundo pecado na nossa sequência reflexiva. Em tempos pós carnaval, escolhi o pecado da carne propositalmente. Afinal, os hormônios ainda têm respiros da festa momesca. 

A concupiscência é representada por toda a sorte de desregramentos no comportamento sexual humano, desde os mais simples pensamentos devassos até os atos de libertinagem e desvios sexuais, concretamente falando. A libertinagem, a pornografia, o erotismo, incitam pelo mundo afora esse pecado que é tido, como o de todos, o mais insidioso. A luxúria tem estado cada vez mais presente (ou, pelo menos, evidente em uma prática até então não divulgada), principalmente pela facilidade e rapidez dos meios de comunicação atuais. Quem nunca “tocou uma” com um vídeo da internet, ou mesmo aqueles de duração mais curta recebido pelo WhatsApp, ou fez uma inocente (?) nude, que atire a tal pedra, chamariz de nosso texto. 

O fato é que nossos ancestrais nem imaginavam, mas, desde a primeira vez em que um deles se propôs a variar a posição só para experimentar, o sexo ganhou uma dimensão muito maior que a inicial – que era fazer outros de nós. É claro que não evoluímos para ver filmes pornô, comprar vibradores ou pagar por sexo (será?). A chave é uma só: a busca pelo prazer. E onde entra a luxúria nessa história? O conceito, muito mais teológico, diz que o pecado é sobre se deixar dominar pelas paixões carnais. E o que pode ser mais carnal que o sexo? A dúvida mesmo é definir: o que é além da conta ou o que pode ser considerado anormal entre quatro paredes? Ou mesmo fora delas? Afinal, se estamos falando de luxúria (ou todas as formas de prazer sexual), não podemos esquecer dos que gostam de estar fora destas quatro paredes, os exibicionistas e, claro, daqueles que alimentam essa prática: os voyeurs

O comportamento sexual pode partir de uma simples relação monogâmica, perpassando pela promiscuidade óbvia envolvendo vários parceiros a atos solitários como masturbação compulsiva (ou não), voyeurismo, exibicionismo, ou a entrega obsessiva à fantasia ou à sedução amorosa. Na verdade, essa seria uma visão muito simplória para tratar de sexualidade. Falar de um tema tão rico, requereria todas as minhas colunas de 2019 para desenvolver esse assunto que tanto gosto (confesso que sou muito tendencioso a esse pecado). 

E para falar dessa amplitude sexual, precisaríamos adentrar em infinitos perfis e desejos. Afinal, tem gosto para tudo (ou seriam distúrbios psicológicos? – mas eu deixaria essa resposta aos especialistas que dominam o assunto). E alguns deles são até considerados bizarros, tidos como anormais, ou mesmo crimes. Temos como os mais conhecidos, a pedofilia (desejos ou atos sexuais com crianças e que é muito comum entre pessoas da mesma família), zoofilia (quando uma pessoa se sente atraída ou pratica relações sexuais com animais), voyeurismo – adoro! – (quando uma pessoa precisa observar pessoas que estão tirando a roupa, nuas ou fazendo sexo, com ou sem a ciência delas), masoquismo (ocorre quando a pessoa precisa sofrer, na esfera física ou emocional, para sentir prazer sexual), sadismo (caminha em complemento ao masoquismo, que é quando uma pessoa precisa provocar, na esfera física ou emocional, sofrimento a outra pessoa, e só assim consegue sentir prazer sexual) e um muito comum hoje em dia, o frotteurismo (que é quando um homem toca ou esfrega o pênis em outra pessoa completamente vestida, sem sua concordância, para ter prazer sexual. Esse é uma prática muito comum em transportes públicos e é por isso que, em alguns lugares, há vagões de trem e metrô somente para mulheres.

A questão é que a nossa mente funciona de acordo com o princípio do prazer e, com nosso amadurecimento, vamos aceitando (ou não) que precisamos abrir mão de parte dessa busca pelo prazer e atender aos princípios das regras que a sociedade em que vivemos nos impõe. Em algumas culturas, por exemplo, a homossexualidade é considerada perversão e até mesmo crime (lamento dizer que o Brasil está se tornando bem simpático a isso), o que a psicanálise não classifica como tal, pois a orientação sexual não se baseia numa escolha consciente, mas numa rede de identificações inconscientes e genéticas. Já na Grécia, o conceito de homossexualidade sequer era considerado e, por vezes, orgias eram até rituais sagrados. A poligamia, proibida no Brasil, é aceita oficial e extraoficialmente em mais de 50 países. E porque aqui os poliamores são tão discriminados? Preconceito ou simplesmente herança cultural? Ou um desejo reprimido de viver tudo aquilo que quem você condena vive? Ou seja, o que é normal para mim pode não ser para você. E isso não significa que eu seja um anormal ou criminoso. O limite é ferir a si mesmo ou outra pessoa, da forma que for – sem autorização, que fique claro. No caso do perverso ou criminoso, ele está sempre em busca da satisfação do seu desejo, sem considerar a lei ou o outro, ultrapassando os limites.

Em minhas rasas pesquisas estudei que, envolvido com os mistérios do inconsciente, Freud estabeleceu uma relação entre desejo proibido e sexualidade. Para ele, toda criança tem desejos, que reprime ou sublima. Os pais e a sociedade vão mostrando o que pode e não pode ser feito e ela passa a ter noção do que é proibido ou permitido naquele clã. Embora não sejamos capazes de controlar o desejo, somos aptos a dominar nossos atos. E quando esses atos estão previstos em diplomas legais que regulam a nossa conduta social e comportamo-nos em contrário à elas, configura-se crime.

Ocorre, portanto, que eu, Julio, entendo que ao longo das conquistas sociais do país e do mundo, houve uma espécie de laicização da vida cotidiana, onde o termo luxúria passou a ser inocentado, ou mesmo atenuado de seu peso. A meu ver, o tradicional sinônimo dado a esse pecado, vinculado necessariamente ao comportamento sexual, tem uma reflexão muito maior. A questão não é de natureza moral, é de natureza político-social. E se usarmos as palavras de origem linguística deste termo, luxúria é tudo que advém de luxo. Seriam então nossos políticos (e tantos outros cidadãos), “defensores da moral e dos bons costumes”, seres luxuriosos por outras razões? Neste contexto, a luxúria é uma acumulação injusta de capital que se traduz na aquisição e na exposição a objetos e práticas de luxo. Objetos e práticas que devem, por sua vez, ser pesados e avaliados num contexto amplo, nomeadamente considerando os costumes, as forças e a distribuição injusta das rendas, bem como a pobreza social. 

É bacana assistirmos um casal, seja ele homo ou hétero, fazendo sexo na rua? Eu, Julio, dependendo do contexto, gostaria de ver. Mas me incomoda às vezes, se eu estiver com meus sobrinhos, crianças, num shopping e presenciar um casal hétero (cito este tipo, por ser o modelo “aceito” em nossa sociedade) quase se engolindo numa praça de alimentação, por exemplo. O momento é quem vai ditar a situação. Se esta prática não está sendo realizada dentro deste contexto, expor imagens de uma determinada ocasião a quem não teve acesso a ela, por escolha, faz parte da incitação do que se torna, hipocritamente condenável. Fazendo um paralelo, é como se eu fosse a uma casa de orgia, filmasse e divulgasse. Ora, estaria eu, portanto, submetendo à outras pessoas, uma situação em que elas optaram em não vivenciar. 

Mas quando falamos de um contexto político-social, e as responsabilidades que nossas ações interferem nele, é que entra nossas obrigações como cidadãos ou líderes de estado. Ostentar nosso luxo, diante das mazelas e da pobreza humana, sem termos sensibilidade de ajuda ao próximo, usarmos nosso poder de persuasão para ganharmos poder em função da ignorância do outro e não recompensá-los por isso, é, a meu ver, um pecado muito mais condenável, do que eu participar de um inocente swing.... 

Afinal, como eu disse anteriormente, o pecado é quando algo no seu comportamento que fere o outro sem o consentimento dele. Resolvi tornar essa frase meu parágrafo final e não um texto continuativo para que você leia, releia e reflita. Onde está realmente o seu pecado de luxúria?

Leia Também:
Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter



A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: