terça-feira, 26 de março de 2019

Um Rebelde em Causa da Preguiça





Tenho que confessar: sou um preguiçoso! Tenho preguiça de acordar cedo, de fazer exercícios e até mesmo de chupar uma laranja porque preciso descascá-la. Também tenho preguiça de escrever (juro!). E, por causa desta preguiça, fui adiando a escrita desse texto até o último momento, quando já não tinha mais como fugir, pois, nosso editor chefe dá muitas broncas quando atrasamos os textos! Mas, deixando essa parte de lado, queria mesmo constatar que, além de preguiçoso sou um procrastinador – e você já se deu conta de que a procrastinação é uma espécie de “prima-irmã” da preguiça? Apesar disso, não me considero uma pessoa improdutiva.

Vamos fazer uma reflexão: Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo, certo? Após muito trabalho, nada mais digno do que um bom dia de descanso para relaxar, não é mesmo? Mas, o “relax” merecido é bastante diferente do que o conhecido pecado da PREGUIÇA. Preguiçoso é aquele que nada faz e que se arrepia se ouve a palavra trabalho. A pessoa com este pecado capital é caracterizada como alguém que vive em estado de falta de capricho, de esmero, de empenho, em negligência, desleixo, morosidade, lentidão e moleza, de causa orgânica ou psíquica, que a leva à inatividade acentuada. Oxe, Deus me livre! Isso afetaria – e muito! – a minha vaidade!

Portanto, para ser um “procrastinador produtivo” – querendo atenuar minha classificação de preguiçoso - deve-se seguir o princípio de que “qualquer um pode fazer qualquer quantidade de trabalho, desde que não seja o trabalho que pretensamente se deveria estar fazendo naquele momento”. Não é um bom princípio este? Às vezes consigo segui-lo, às vezes não. Neste caso, adiei porque escrever sobre preguiça dá muito trabalho. Aliás, escrever dá muito trabalho, já disse. E tudo que dá trabalho, que exige esforço, me gera preguiça.

A preguiça como pecado capital é aquela que, mesmo quando temos tempo sobrando, deixamos de fazer coisas boas que vão agregar algo à nós ou ao próximo. Pense assim: Deus lhe deu uma vida maravilhosa para que você fizesse grandes obras com ela e a desperdiça fazendo o que? NADAAAA!!!

Para fugir deste pecado é preciso, antes de tudo, encarar-se no espelho, admitir o que está acontecendo, redescobrir os seus desejos internos e ir atrás deles, trabalhando sem parar (já cansei só de pensar) até conquistá-los. Lembra-se da fábula da Cigarra e da Formiga? Enquanto uma passou o verão cantando, a outra trabalhou. No inverno, a primeira ficou sem comida e a segunda descansou tranquilamente, pois sabia que tinha o estoque suficiente. Encontre sua motivação e vá atrás. Não desperdice o dom que recebeu se lamentando ou dormindo (zzzzz).

Como em minha série de textos sempre proponho um paralelo com o mundo atual e nosso comportamento no dia-a-dia, relacionado a esta visão, li certa vez que o compositor baiano Dorival Caymmi passava várias horas do dia olhando para o mar, contemplando sua beleza. Independente disto ser verdade ou mentira – e sem desejar reforçar o mito da preguiça baiana – gostaria de trazer a discussão para o presente e propor o seguinte questionamento: você consegue imaginar tal comportamento no mundo atual? Num mundo hiperconectado e hiperativo como o nosso, a contemplação (e a preguiça) tem cada vez menos espaço. Cada vez menos olhamos para o mar ou para o céu ou ainda para as pessoas. Tenho observado nas ruas, que o comportamento padrão de muitas pessoas quando estão sentadas esperando o ônibus ou dentro do metrô (às vezes me pego, inclusive, andando nas ruas assim) é ficarem mexendo ininterruptamente no celular ou no tablet. Parecem imersas naquele mundo virtual, como que ignorando o mundo real à sua volta. Cada vez mais olhamos menos para o mundo e para as outras pessoas. Ao mesmo tempo, nunca interagimos tanto, nunca estivemos tão interligados, nunca tivemos tão próximos de pessoas distantes fisicamente de nós. Se perdemos por um lado, ganhamos por outro, obviamente. Mas, de fato, temos perdido, cada vez mais, a capacidade de contemplar o mundo. E isso tem consequências.

Ultimamente, somos obrigados a prezar cada vez mais pela velocidade e pela quantidade, em detrimento da calma e da qualidade. Devemos ocupar nosso dia com o máximo de atividade que pudermos. Devemos manter nossa mente sempre ocupada, afinal, “cabeça vazia é oficina do diabo”. Devemos trabalhar o máximo e dormir o mínimo. Não podemos nos esquecer que “tempo é dinheiro”. Devemos andar depressa, comer depressa, transar depressa, amar depressa. A vida é curta, não há tempo a perder. Devemos viver o máximo, aproveitar o máximo, gozar o máximo. Mas certas coisas não podem nem devem ser apressadas. Elas levam tempo, precisam de lentidão. Quando aceleramos coisas que não devem ser aceleradas (na hora da minha luxúria quero algo beeeem demorado), quando esquecemos como é possível moderar o ritmo, sempre pagamos um preço. E este preço tem sido cada vez mais alto. Estamos cada vez mais ansiosos, mais deprimidos, mais doentes do corpo e da alma. E toda esta velocidade certamente contribui para este mal-estar contemporâneo.

Mas felizmente, como reação a esta brutal apropriação do tempo pelo capitalismo contemporâneo, um contingente cada vez maior de pessoas tem aderido à filosofia slow e tentado ir mais devagar. Em todas as esferas de ação humana que você possa imaginar, de sexo, trabalho e exercícios a alimentos, medicina e urbanismo, estes rebeldes vem fazendo o impensável – estão abrindo espaço para a lentidão. Num mundo que anda com tanta pressa, nada mais revolucionário do que ir devagar, não é mesmo? Nada mais rebelde do que ser um pouco preguiçoso. E como sou um carinha transgressor e conscientemente pecador e interpreto os textos sacros de acordo com a minha conveniência, está lá na Bíblia, podem ler:
“Todo aquele que vive habitualmente no pecado também vive na rebeldia, pois o pecado é rebeldia.” (João 3:4) 
Então, que sejamos rebeldes! Viva o ócio! Viva a lerdeza! Viva a preguiça!

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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