sexta-feira, 19 de abril de 2019

A Memória e as Cinzas




Nesta última semana, o mundo foi surpreendido pelo trágico incêndio em um dos locais mais visitados por todo o mundo: a Catedral de Notre-Dame, em Paris.  Construída no século XII, levou cerca de 200 anos para ser concluída e, atualmente com mais de 850 anos, guarda relíquias do catolicismo, como fragmentos do que poderia ter sido a coroa de espinhos de Jesus Cristo, um pedaço de madeira da própria cruz e um prego utilizado na crucificação.  Ali foi realizada a coroação de Napoleão Bonaparte a imperador e a beatificação de Joana D´Arc.  Em 1314, os templários também teriam sido queimados vivos em uma fogueira, na frente da catedral, condenados pelo Papa Clemente V, influenciado pelo rei Filipe IV, que acusaram os templários de blasfemarem contra a Igreja.  Também teve grande influência na literatura do período romântico quando Victor Hugo escreveu, em 1831, um de seus mais famosos livros, O Corcunda de Notre Dame, cenário da história de Quasímodo e da cigana Esmeralda.  Notre-Dame ainda resistiu a duas guerras mundiais, à ocupação nazista e à Revolução.

Notre-Dame recebe uma média de 35 mil pessoas por dia.  Ano passado estive lá e pude presenciar a sua grandiosidade.  Entrar naquela catedral foi uma experiência única.  No dia não consegui subir os mais de 400 degraus para chegar até parte da torre e observar as gárgulas que a cercavam.  Mas, enquanto assistia uma missa sonorizada pelo seu famoso órgão, que dava um clima soturno e tenebroso, nos fazendo viajar para o sombrio clima gótico, prometi para mim mesmo que voltaria em breve àquele mesmo lugar.

Em setembro do ano passado, o nosso Museu Nacional também foi consumido por um incêndio.  Devastador.  E ocorreu exatamente no ano em que o local comemorava dois séculos de existência.  O Museu Nacional era a instituição científica mais antiga do país e com mais de 20 milhões de itens, de uma hora para outra, praticamente tudo se tornou pó.  Entre 1816 e 1821 foi a residência oficial da família real no Brasil.  Lá a mulher de D. Pedro I, princesa Leopoldina assinou a Declaração de Independência do Brasil (1822) e foi realizada a primeira Assembleia Constituinte (1824), para elaborar a primeira Constituição brasileira.  No museu estava exposto o crânio fossilizado da brasileira mais antiga: Luzia, com cerca de 11 mil anos.  Também existia uma coleção egípcia com múmias completamente intocadas – o que é uma raridade, pois só devem existir menos de 10 no mundo inteiro.

O museu recebia poucas visitas.  Nem chegou a receber integralmente a verba de R$ 520 mil por ano para sua manutenção em 2018.  Cheguei a visitá-lo várias vezes.  Estava abandonado, mas ainda assim guardava elementos muito importantes para minha memória.  O Museu Nacional tinha sido o local de meu primeiro passeio escolar, ainda no Jardim da Infância.  Lembro-me de ter ficado maravilhado quando entrei na sala dos esqueletos dos animais e todas as vezes que eu voltava, tinha a mesma sensação de espanto e admiração.  Da última vez que o visitei, fui sozinho e prometi para mim mesmo que levaria alguns amigos para conhecê-lo posteriormente.

Os dois incêndios obviamente causaram uma grande comoção.  Entretanto, algumas comparações precisam e devem ser reforçadas.  Em Paris, os bombeiros ainda tentavam apagar o fogo e o presidente francês, Emmanuel Macron, que anda bem impopular, na verdade, se reconectou com os cidadãos franceses, deixando sua imagem arrogante para trás.  “Somos este povo de construtores, temos tanto para reconstruir, por isso, sim, reconstruiremos a Catedral de Norte-Dame e quero que isso esteja concluído dentro de cinco anos", estimou Macron. E garantiu, com confiança: "Temos muito a fazer. Agiremos e conseguiremos."

No Brasil, após o incêndio no Museu Nacional, o então candidato Jair Bolsonaro, durante campanha presidencial, deu a seguinte resposta ao ser questionado sobre o incidente por jornalistas em uma entrevista coletiva:  “Já está feito, já pegou fogo, quer que faça o quê? (...) O meu nome é Messias, mas eu não tenho como fazer milagre”.

Ainda não haviam sido apagadas as chamas quando foi realizada uma grande corrente de doações em Paris para a reconstrução da catedral.  Em menos de 24 horas já havia sido contabilizado mais de R$ 2,8 bilhões.  A família Arnault, dona de grifes como a Louis Vuitton, desembolsou R$ 875 milhões.  Os donos da Gucci e L´Oreal também entraram na lista de doações.  Dizem que, inclusive, há uma brasileira: Lily Safra, viúva do dono do Banco Safra, que teria doado 88 milhões de reais.  Estima-se que já existam mais de 4 bilhões em doações destinados à reconstrução da Notre-Dame.

Já no Brasil,  sete meses após o incêndio do nosso Museu Nacional, não podemos ter o mesmo otimismo.  Órgãos estrangeiros como o governo alemão e a British Council doaram juntos, cerca de 950 mil.  A Associação dos Amigos do Museu recebeu R$ 15 mil de pessoas jurídicas e R$ 142 mil de pessoas físicas no Brasil.  Estima-se que a reconstrução do museu gaste em torno de R$ 100 milhões.

Os exemplos aqui citados foram só uma pequena forma de exemplificar o tamanho do descaso que temos pela nossa história.  Nos dois episódios fiquei extremamente abalado, pois parecia que uma parte de minhas boas recordações tinham sido arrancadas de mim.  Apesar do vazio, restou uma esperança ao ver que a recuperação da Notre-Dame está garantida.  Mas e o nosso museu?  Quando essa mobilização vai estar presente na vida de nós cidadãos e dos empresários?  Onde estão os milionários brasileiros (sim, eles existem) que precisam entender que o futuro depende da preservação de nossa memória?

Que a linda e imponente Notre-Dame nos inspire.  


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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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