sexta-feira, 26 de abril de 2019

As Dores do Mundo





A gente sempre se sente meio Highlander depois que sobreviveu a umas duas dezenas de crises renais.  Só quem viveu isso sabe o que eu estou dizendo.  A parada é realmente sinistra.

A primeira vez que tive uma crise renal eu deveria ter uns 24 anos.  Foi uma dor que surgiu de repente.  Eu estava lanchando na copa do trabalho quando senti algo lancinante e a visão escureceu.  Foi uma dor tão forte que perdi os sentidos.  Quando acordei estavam todos da equipe me olhando assustados e eu nem tinha percebido que a dor tinha ido embora, mas havia ficado um mal estar tremendo, além da sensação de um trem ter me atropelado.  Minha chefe ficou assustada com a minha palidez e me liberou para que eu fosse para casa.  No meio do caminho deu uma vontade incontrolável de urinar.  Nunca tinha sentido tamanha vontade assim na vida.  Correndo, encontrei um banheiro de uma loja e lá me tremi todo quando percebi que o invés do xixi de sempre em sangue vivo havia se transmutado.

Pensei que nem Vanessa da Matta antes mesmo dela gravar “é só isso, não tem mais jeito, acabou, boa sorte”.  Fiquei uns dois dias tendo uma hemorragia até que contei pro meu pai.  “Véio, tô morrendo”.  E aí desmaiei pela segunda vez.  Só acordei já em cima de uma maca com o médico informando que eu precisaria fazer a cirurgia emergencial pois uma pedra de uns 3cm estava bloqueando todo o meu ureter e eu poderia naquela noite mesmo entrar em coma.

Fiz a cirurgia e fiquei uns meses de molho.  Foi um horror.  Naquela época ainda não era comum fazer a cirurgia a laser; então precisou fazer o corte tradicional e depois daquilo fiquei anos sem ir à praia pois tinha vergonha, enfim, um papo que daria umas dez colunas do Barba Feita para que eu pudesse contar tudo.

Dizem que quem tem uma vez cálculo renal, terá sempre.  Se é mito, para mim não foi.  Realmente eu tenho uma coleção de pedras.  Sempre digo que ali, naquele vidro estão as dores do mundo.  Algumas saíram através da ureterorrenolitotripsia, um nome complicado que aprendi a pronunciar sem pestanejar – quando os cálculos são retirados através da introdução de um aparelho na uretra e “pescados”.  Outros saíram naturalmente.  Nunca tive filhos, mas já me disseram que a sensação é de ter gêmeos de parto normal, todos saindo na mesma hora.  A última que eliminei tinha 1,2cm e pasmem, ela saiu por aquele buraquinho.  Não me perguntem como, mas ela saiu.

Você já deve estar aí se retorcendo, imaginando a dor.  Posso garantir que dói.  Dói mesmo.  Muito mais do que você pode imaginar.  Meu maior medo era que algum dia uma pedra ficasse entalada no meio do caminho.  E sim, isso já aconteceu.  E é enlouquecedor.   

Semana passada acordei com uma nova dor na madrugada.  Horas antes, estava super bem, tinha pego um cineminha e... de repente, ela chegou.  No início, parecia uma grande azia.  Pensei “comi pipoca pra caralhooo e deve ter sido isso”.  Mas a tal azia começou a ficar mais esquisita.  Fiquei sufocado como se alguma coisa pressionasse meu abdômen.  Não era dor de crise renal.  Não tinha o estrangulamento, mas tinha uma sufocação absurda.  Não aguentei e fui para o hospital.  E lá vinham eles querendo saber de 0 a 10 qual a escala da dor. 

Durante muitos anos trabalhei em um hospital em que a dor crônica fazia parte da rotina dos pacientes.  Lá entendi o porquê do uso da escala.  “Ora, mas toda dor é um inferno... sempre é 10”... Não... eu já tive uma grau 10.  E foi aquela primeira lá quando eu tinha 20 e poucos anos e apaguei.  Passaram-se mais 24 anos e nunca me esqueci dela.  Aquela continua sendo a grau 10.  A que senti na semana passada estava entre 7,5 e 8.  Quase 8.

Após fazer uma tomografia (hospital adora fazer tomografia e eu odeio ter que entrar naquela máquina e ficar sem respirar) e ter tomado um mata-leão na veia, a médica muito calmamente diz: “sua vesícula tem múltiplos cálculos.  Em média 2cm cada um.  Vai ter que operar.  Como não está inflamada, a cirurgia é eletiva.  Procure um cirurgião urgente”.

Eu, ainda grogue, só tinha compreendido os tais 2cm em média de cada cálculo.  Não sei se tive um upgrade.  Do rim para a vesícula é um longo caminho. 

Na volta para casa só pensava em duas  coisas: a gente nunca está preparado para (re)viver as dores do mundo e nem ter que dar de 0 a 10 numa escala.  E enquanto olhava o céu azul através do vidro do Uber, lembrava do poema de Manuel Bandeira:

“Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não.  A única saída a fazer é tocar um tango argentino.”

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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