terça-feira, 16 de abril de 2019

Avareza: O Excesso que Desemboca em Todos os Pecados




O último pecado da série que temos escrito nas últimas semanas, inspira-se na urgente e ilimitada vontade de querer mais - independentemente do que seja, se você já tem em quantidade suficiente ou qual o impacto que esse desejo exacerbado pode ter para o próximo. A AVAREZA é a materialização de uma forma insaciável de se ter o excesso de algo – geralmente material. Sob a ótica teológica, ela nos faz ultrapassar os limites das nossas verdadeiras necessidades, uma GANÂNCIA sem fim. Na semana em que o mundo está envolto à eventos relacionados à Páscoa, escolhi este tema para encerrar nossas reflexões e dividir com vocês as minhas angústias em (tentar) entender o que está por trás dessa COBIÇA desenfreada que se desenvolveu ainda mais com o passar dos séculos e tem dominado o comportamento humano.

Resolvi, como fechamento, fazer um paralelo deste pecado com todos os outros que discorremos aqui nas últimas semanas e, claro, dar aquela pitada de crítica social. A avareza, em verdade, não está apenas na busca cada vez maior pelo dinheiro e pelo poder. Nossa ganância também está na comida, no sexo, na intolerância com o outro e que gera a raiva, na preguiça excessiva, na soberba de nos acharmos melhores que o outro e na inveja de queremos o que não é nosso, sem nem precisarmos daquilo. 

Partindo deste pressuposto, este pecado deveria então, ser reinterpretado, pois, para alguns teólogos, o conceito seria justamente Ganância e não Avareza. O conceito de avarento de certa forma se difere do conceito do pecado da Avareza. Uma pessoa avarenta é aquela que possui um possessivo apego por bens materiais, seja dinheiro, objetos, etc. No entanto, quando analisamos o conceito histórico deste pecado, ele se origina da palavra hebraica mammon que significa literalmente "dinheiro". A concepção do pecado desenvolveu-se então a partir da ideia de que a pessoa passava a se tornar gananciosa exclusivamente por dinheiro. 

A avareza leva ao egoísmo pela posse de algo, e não querer compartilhar daquilo, onde também leva ao ponto de não emprestá-lo. Por sua vez, a ganância motiva a pessoa a querer sempre mais, sempre enriquecer. No entanto, a meu ver, a avareza e a ganância deixaram de referirem-se apenas ao dinheiro e passaram a personificar outras questões da vida, do nosso cotidiano. 

Mas devemos ter em mente que sonhar, desejar e almejar algo, não é propriamente cobiça. Todos nós possuímos sonhos, expectativas para o futuro, esperanças de conseguir um bom emprego, uma boa casa, um companheiro amoroso, poder criar os filhos de forma justa e saudável, ter estudo e educação dignos, viajar para tal lugar, etc. E isso não é pecado. Mas, quando tais sonhos e desejos se tornam egoístas, saem fora do controle e a pessoa tende até mesmo a agir de forma inescrupulosa, isso se torna uma conduta condenável. E qual a interligação deste pecado com os outros? Será que ao longo de todas as reflexões que trouxemos e que você, leitor, pode ter se identificado com uma ou algumas, chegaria a conclusão através deste que você, na verdade, tem atitudes do seu dia-a-dia, que estão inseridas em todos? Vejamos:

Avareza e Soberba: A avareza é considerada um ato egoísta, possessivo e obsessivo por algo, por alguma coisa ou alguém. Quando o avarento passa a esnobar por suas posses, ou repudiar críticas às suas atitudes, se colocando sempre como dono da razão, ele acaba se tornando soberbo. Por exemplo, o ciúme é um sentimento avarento, onde o indivíduo passa a conceber o alvo desse sentimento como se fosse uma posse, logo, o ciumento passa a interferir na vida desta pessoa, a isolando de certas companhias, lhe impondo restrições e proibições. Neste ponto, o ciúme personifica a avareza pelo outro, pois no seu entendimento, apenas a sua ideia é que deve prevalecer, pois deseja aquela pessoa só para si, como sinal de egoísmo, esquecendo-se de que as vidas e personalidades são individuais.

Avareza e Gula: Neste caso, algumas pessoas tendem a ter um descontrole em se apossar por alimentos e isso gera a "avareza da gula". Já conheci pessoas que tinham o hábito de esconder comida dos outros apenas para não ter que dividir. E faziam isso não necessariamente quando estavam padecendo de fome, mas por pura gula, o popular “olho grande”. 

Ganância e Inveja: A inveja que se tem pelas posses de outra pessoa, pode servir de catalisador para o ganancioso querer superar aquela pessoa. Seja se tornando mais rico, possuindo mais casas, apartamentos, tendo mais carros, conseguindo um cargo de trabalho superior ao do outro para ter mais autoridade e poder ou, nos casos de pior conduta, fazer de tudo para tomar o que o outro tem. 

Cobiça e Luxúria: Como foi dito, a cobiça não se limita apenas a questões materiais, mas a outros aspectos, e neste caso, a cobiça por mulheres e homens e, a depender da forma que esse comportamento é conduzido, isso passa a ser chamar promiscuidade. Ou seja, o indivíduo que possui relações com vários indivíduos visando apenas o prazer sexual e nenhum compromisso ou preocupação com os sentimentos do outro. Às vezes, a busca pelo prazer ultrapassa os limites da preservação das emoções dos outros, trazendo sofrimento e decepção.

Avareza/Ganância e Ira: Os avarentos, quando questionados ou confrontados, podem se irar facilmente, pois se sentem ameaçados, encurralados, pois em alguns casos não se reconhecem como estando errados. Por sua vez, a ganância pode levar o indivíduo que almeja conquistar algo, usar a força, violência, trapaça, dissimulação, como forma de conquistar seu objetivo de se apoderar daquilo que cobiça. 

Avareza e Preguiça: Em excesso, esses dois tipos são bem desagradáveis. A correlação que faço deste último pecado, diferentemente dos outros, tem a ver com esse exagero comum aos dois e não a uma consequência de um para o outro. O avarento e o preguiçoso são mal vistos, mal falados. O avarento desconhece generosidade, partilha e justiça. O preguiçoso, por si, acaba deixando de ser generoso em função da sua falta de controle sobre sua inércia e ao negar-se em ajudar alguém em função de sua indolência, torna-se egoísta. 

Em suma, esta série de textos, para alguns pode ter sido divertida, para outros reflexiva e para outros tantos trouxe sono por ter sido, em vezes, monótona. Para mim, soou analítica. Ao escrever os textos, eu me peguei por muitas vezes analisando meu próprio comportamento e os dos que me cercam. 

Mas pecar não é a chancela para a condenação eterna. É por meio do pecado que os indivíduos se fazem humanos e é por meio dos pecados que os indivíduos se tornam objetos de si mesmos, afinal, é pela falta de controle sobre esses comportamentos que damos margem aos mais diversos desvios de conduta. No entanto, se o termo pecado é usado como forma de controle e direcionamento comportamental por religiões e sociedades, a ideia de usar tais analogias é apenas para te trazer à reflexão mais simples de todas: Não levantemos nunca mais nosso dedo para apontar alguém, pois lá no nosso profundo “eu”, nós também somos pecadores.

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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