quarta-feira, 24 de abril de 2019

Desde 1.500...




Nesses últimos dias, viemos numa série de feriados e celebrações que, coincidência ou não, se fizeram historicamente muito próximos. Dia do Índio, Dia de Tiradentes, "Descobrimento" do Brasil... Todos conhecemos essas datas desde pequenos e a maioria, quando criança, se vestia de indígena na escola e via as gravuras meio com cara de Cristo atribuídas a Tiradentes. Ou mesmo aprendia, por meio da literatura, que os portugueses foram os que trouxeram o progresso a essa terra onde só havia mato e selvagens.

Para mim, foi inevitável lembrar do samba da Mangueira, vencedor do carnaval carioca esse ano, que dizia que "desde 1500 há mais invasão do que descobrimento". E, infelizmente, esse é o DNA do nosso país: construído na base do genocídio, da mentira, da imposição e do estupro.

Quantos de nós não cresceram ouvindo coisas negativas de índios? Que eram preguiçosos e indolentes e, por isso, os portugueses tiveram, veja só, que trazer escravos negros para trabalhar no Brasil? Que só sabiam brigar por terras quando lhes interessava, impedindo empresários de gerarem riquezas ao país?

Quantos de nós não ouvimos, de forma romântica, que o Brasil é resultado de uma grande miscigenação de brancos, negros e índios - e que muitos portugueses se apaixonaram por nativas, quando, na verdade, a incontável maioria foi abusada e obrigada a ter relações sexuais somente para satisfazer os varões que estavam havia muito tempo sem suas esposas ou amantes? 

Isso me lembra também quando fui ao Peru e conheci tanto a capital Lima quanto o Vale Sagrado dos Incas. Em Cuzco, é muito clara a exaltação à cultura e à História nativas e a vilanização de espanhóis invasores, tendo em Francisco Pizarro seu maior expoente. Já na capital era comum uma releitura dessa realidade, com Pizarro aparecendo como alguém que teve que quebrar ovos para fazer uma omelete muito mais importante. Só demonstra o quanto temos, mesmo com nossas particularidades, construções muito próximas na América Latina, explorada e subjugada pela Europa Ibérica.

No meio desses últimos dias, também celebramos a Páscoa Cristã e a Judaica. Em ambas, a mensagem de renovação e libertação se faz presente. Gosto bastante da Páscoa desde pequeno, muito por causa dos chocolates, mas, também, pela sua mensagem metafórica de superação. No meio de tantas reflexões desesperançosas sobre o nosso passado, é um alento pensar que há um dia para celebrar a possibilidade de nos recriarmos e reinventarmos. Será que ainda somos capazes enquanto nação?

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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