sexta-feira, 12 de abril de 2019

Enquanto os Homens Exercem Seus Podres Poderes...





Nunca deveríamos ficar remoendo coisas ruins, mas muitos dos acontecimentos desagradáveis precisam ser lembrados o tempo inteiro para que eles não se repitam.  Infelizmente, o brasileiro é um povo que peca pela falta de memória.  Insistimos nos mesmos erros, há sempre o falado “jeitinho” e ainda dizem que nada acontece de ruim pois Deus é brasileiro.  Acontece que Deus deve estar com muitos outros afazeres, ou então, já deve estar de saco cheio, como diria Almir Guineto. 

Essa semana que passou deveria ser riscada da nossa história?  Deveria ser apagada de nossa memória?  A resposta é não.  Precisamos deixá-la viva dentro de nós para que nunca nos esqueçamos dela, mesmo que pareça (e é) uma tortura, pois só assim estaremos mais alertas para que possamos cobrar de quem quer que seja, ou somente para que estejamos mais atentos para nossas próprias atitudes.

A semana começou desastrosa com o inacreditável ataque do Exército contra o carro de uma família em Guadalupe a caminho de um chá de bebê.  O motivo?  “Confundiram” o veículo com um que havia sido roubado por bandidos.  Aí, como num joguinho de Counter Strike, dispararam 80 tiros.  Oitenta! 

Imediatamente me recordei de uma crônica de Clarice Lispector chamada Um grama de radium – Mineirinho que, em um trecho, aponta a crueldade e o exagero em um assassinato:
“...mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”
Em uma entrevista, anos mais tarde, a escritora diria que “qualquer que tivesse sido o crime dele, uma bala bastava. O resto era vontade de matar. Era prepotência”.

Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, era um músico.  Um cidadão que morreu na frente de seu filho de sete anos, sua esposa, uma amiga e seu sogro.  Luciano Macedo, um outro cidadão que sobrevivia nessa cidade catando sucatas está em coma.  Também foi atingido no peito por um dos 80 tiros.  Seu crime foi tentar ajudar a família.  E os atiradores só estavam com pura prepotência da vontade de matar.   

Na segunda-feira, a tragédia veio de cima.  Mas que poderia ter sido amenizada se as pessoas aqui em baixo tivessem cumprido o seu papel.  Desde 2015, obras de drenagem e contenção de encostas estão paradas, mas o prefeito culpa o aquecimento global e a corrupção como os grandes vilões da enchente que assolou o Rio de Janeiro nos últimos dias.  Dez pessoas morreram.  Cidadãos com histórias, sonhos e planos para cumprir. 

Guilherme Nascimento comemorava seu aniversário de 30 anos.  O dia já tinha até passado, mas ele tinha chamado uns amigos para um churrasco quando a carne acabou e saiu para comprar mais.  No caminho até a Rocinha, foi surpreendido pela força das águas.  Sua mulher, a filhinha de 1 ano e os convidados ficaram aguardando seu retorno.  A chuva não cessou e Guilherme não voltou.

Em Santa Cruz, um dos locais mais atingidos, Leandro Ramos, com a ajuda da namorada e da irmã dela, tentava salvar os móveis da enchente.  Foi eletrocutado enquanto tentava desobstruir um ralo.  Em uma rede social, um recado “a vida é uma só”.

Vidas que foram tiradas como a D. Lucia Neves e de sua netinha Julia de 6 anos, que saíam de um aniversário no shopping Rio Sul.  Menos de 10 minutos dali, o taxi foi atingido por uma pedra e lama, que despencou na Ladeira do Leme.  O motorista, Marcelo Tavares, também não resistiu.  Um sinal de GPS fez com que amigos e parentes, sem a ajuda de equipamentos, começassem a cavar com as próprias mãos a terra que cobria o veículo.  Esperança e frustração.

Longe daquele caos em que o Rio de Janeiro se transformou, a ministra da Agricultura Tereza Cristina defendia a liberação de quase uma centena de novos produtos elaborados com agrotóxicos.  E ainda disse que o brasileiro não passa muita fome porque “temos muita manga nas nossas cidades”.

Também houve o discurso do novo ministro da Educação em uma ode ao “combate aos comunistas”, que seriam os detentores do poder no país.  
Os comunistas são o topo do país. Eles são o topo das organizações financeiras; eles são os donos dos jornais; eles são os donos das grandes empresas; eles são os donos dos monopólios.  
A fala é um plágio do mesmo discurso segregacionista de Hitler.  É só substituir “comunista” por “judeu”.  Mas aí dirão que foi coincidência.  Alguém ainda acredita que hajam coincidências na política?

Política essa que o próprio presidente não quer que os jovens discutam. “Queremos uma garotada que comece a não se interessar por política, como é atualmente dentro das escolas, mas comece a aprender coisas que possam levá-las ao espaço no futuro”, disse durante a mesma cerimônia de posse do novo ministro.  O presidente, como todos sabem, entranhou na política todos os seus filhos.  Meninos que poderiam sonhar em serem astronautas um dia.

Nenhuma palavra sobre os fatos aqui descritos foram mencionados.  Silêncio.  Uma mudez constrangedora.  Mas não esqueçamos dos tiros que silenciaram inocentes e o descaso que afogou vidas.  Espero humildemente que possamos entender um pouco mais de Clarice para que sejamos “mais divinos e adivinharmos em nós a bondade”.

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes, morrer e matar de fome, de raiva e de sede, são tantas vezes gestos naturais”.  Que os “hermetismos pascoais, os tons, os mil tons, seus sons e seus dons geniais” nos salvem dessas trevas. 

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Nancixavierdebrito@yahoo.com.br disse...

Poxa Marcos ,infelizmente esse foi o relato real de uma semana. Até quando vamos ver pessoas arriscando a vida por causa de chuva e até quando vamos sair sem saber se vamos voltar?. Quanto a ter manga para matarfome, precisamos é que parem de roubar para termos direito a comida e não ter governantes que nos explorem e só enchem o bolso deles. O povo precisa tbm ser mais educado, mas com essa politica que temosfica dificil muitas coisas. Enfim parabéns por suas palavras e espero que todos parem p ler e refletir.