terça-feira, 2 de abril de 2019

"Invejoso, Eu?"



Em nossa quinta reflexão sobre os pecados capitais e da maneira em que eles estão inseridos em nossas atitudes mais do que imaginamos, vamos abordar um dos mais rechaçados (segundo Santo Agostinho, esse é o pecado diabólico por excelência): a INVEJA

A inveja nada mais é que a tristeza de ver o outro feliz. Simples assim. Você olha a conquista do outro e, se consciente ou inconscientemente, aquilo lhe traz a sensação de querer viver aquela situação (mesmo quando pensamos: “é uma inveja 'branca', pois não quero tirar dele, fico até feliz por ele, mas queria também viver isso”), sim, querido (a), você tem traços de inveja! A pessoa invejosa contempla a inferioridade alheia ou, quando mais suavemente, a equiparação em relação ao outro, e encontra alívio nisso. 

Um dos maiores males que existe é atacar (diminuindo, menosprezando ou desejando para si) um indivíduo por suas virtudes e ter ódio do que é do outro pelo fato de ser do outro e não – ou também - seu. Contudo, não podemos confundir as coisas. Você não deve se sentir culpado por ter ambição, por buscar prosperidade e riqueza, devendo se sentir orgulhoso por ser miserável. No mundo atual, pautado em tantas hipocrisias de origem teológica, há um esforço muito grande (uma verdadeira engenharia social criada por vigaristas cínicos que desejam o poder) para convencer as pessoas que a meritocracia, a busca pelo lucro, a ganância individual e a competição entre pessoas é algo ruim e imoral. Na mentalidade de muitos brasileiros, a pessoa que dirige um bom carro importado, veste roupas caras, mora em um bom condomínio, come do bom e do melhor e tem uma vida próspera, é a vilã da história. 

Se você quer sair da pobreza, você não está errado! Qual o problema de cobiçar e ter coisas boas, desde que tenham sido adquiridas honestamente, por mérito próprio, sem prejudicar terceiros? Um país como o nosso, tão contraditório e cheio de riquezas naturais, ter uma parcela da população que beira a linha da pobreza é algo inconcebível. Aí é que se encontra esta tal contradição: como os maiores representantes do povo se pautam em discursos cristãos e alimentam cada vez mais a desigualdade social? Essa desigualdade não deveria ser considerada algo natural e definitivamente não faz parte da natureza humana. Por que o cara que quer crescer, estuda e se dedica para isso está eternamente fadado a ser um “sem berço”? Por que o mauricinho universitário que nunca trabalhou tem mais valor que o contínuo que trabalha oito horas por dia para custear e frequentar as mesmas carteiras da universidade?

Mas eu vou um pouco além e, mais uma vez, queria fazer algumas analogias com histórias cristãs para analisar o comportamento de quem se beneficia da “palavra de Deus”. Vejamos: 

Foi por inveja que Lúcifer desobedeceu a Deus, querendo ter os mesmos direitos d`Ele. Ora, ora, caros leitores, quantos de vocês, ou quantos próximos a vocês, são os donos da verdade? Estão sempre prontos a atirar sua metralhadora de julgamentos ao próximo não observando seu próprio umbigo. Seriam vocês uma personificação de Lúcifer? Pesado, não?

Foi por inveja que o rei Herodes mandou matar todas as crianças do seu reino e vizinhança, achando que Jesus iria tomar seu reinado e se destacar mais que ele. Nestes tempos modernos de ode à violência, aos armamentos, às guerras em busca de consolidação de poder, aos ataques verbais mentirosos para mascarar suas próprias condutas, estaríamos sendo coniventes com um dos inimigos de Jesus ao concordarmos e validarmos esse comportamento? Lamento informar, mas de certa forma sim, meu irmão.

Até mesmo Jesus foi invejado pelos sumos sacerdotes por ser solidário diante do sofrimento humano. Se entre mortes e prisões de pessoas influentes e declaradamente lutadoras pelos direitos dos menos favorecidos, nos tornamos indiferentes sob a alegação de que “todo dia morre ou se prende mais um, não será esse só porque é famoso ou político que vou me abalar, estou cansado de mimimi”, não estaríamos nos comportando como os tais sacerdotes?

Enfim, a inveja sempre fez parte da alma humana, em pequenas e grandes doses, fazendo o indivíduo sofrer gratuitamente ao testemunhar o êxito do próximo. Existem pessoas que sempre estão farejando como cães de guarda à espreita do seu alvo de cobiça. Basta alguém se destacar em qualquer área da vida que lá estão elas com seu olhar devorador como se fossem abutres.

Nos dias atuais, a inveja está praticamente inserida em quase todas as classes sociais onde a rivalidade, a calúnia, a fofoca, o ódio, entre outros adjetivos se fazem presentes. Sem contar a competição no meio empresarial, no local de trabalho, entre amigos e até no meio familiar. A pessoa invejosa ignora suas próprias habilidades e seu próprio crescimento espiritual. O seu lema é condenar o outro como se ostentasse o diploma de “senhores sabedores de todas as verdades”

No fundo, o invejoso é inseguro e com baixa estima, só que na sua cabeça ele acha que está agindo normal, sem jamais admitir seus erros e defeitos. Ela mascara na sua pretensa superioridade, as suas deficiências e frustrações que podem ser intelectuais, profissionais, sociais, sentimentais. 

E você, se identificou em algum momento com uma das situações que refletimos aqui? Se vê defensor de uma verdade que só você tem, justificando seu comportamento ruim, querendo realmente acreditar que é algo bom? Mas não tenho uma palavra de consolo, tenho talvez a pá de cal que precisamos para coroar nossa arrogância e prepotência: lembro que Hitler e outros personagens fascistas como Mussolini a Pinochet tinham todos algo em comum: eram seres inadaptados socialmente, gente (?) que, cada um em seu tempo, acreditava que mereciam mais do que tinham ou que se achavam superiores e, por essa razão, sentiam-se no direito de julgar o outro e crer que mereciam sempre o melhor. 

Inveja, meu bem, inveja...

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Leandro Faria  
Julio Britto: carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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